Parenthood não é apenas mais um drama familiar entre os incontáveis que ocuparam a grade da televisão norte-americana.
Criada por Jason Katims e exibida pela NBC entre 2010 e 2015, a série se destacou por abordar o autismo com uma profundidade raramente vista antes na TV. Através de dois personagens em diferentes fases da vida, a produção conseguiu iluminar os desafios da infância e as revelações tardias da idade adulta, sempre longe de estereótipos simplistas.
A Família Braverman e o Panorama da Série
Parenthood acompanha a vida dos quatro filhos adultos de e Camille Braverman, enquanto eles navegam pelos altos e baixos de criar famílias em Berkeley, Califórnia. Cada irmão carrega seus próprios fardos: Adam lida com a pressão de ser o filho responsável; Sarah retorna para casa como mãe solteira em dificuldades; Crosby descobre que tem um filho de um relacionamento anterior; e Julia enfrenta a competição entre carreira e maternidade.
A série, produzida por Ron Howard e Brian Grazer, foi adaptada do filme homônimo de 1989 e rapidamente conquistou crítica e público, alcançando 88% de aprovação no Rotten Tomatoes ao longo de suas seis temporadas. O que a diferenciava de outros dramas familiares, porém, era sua disposição em mergulhar em territórios pouco explorados e nenhum deles foi mais impactante do que a jornada do autismo dentro da família Braverman.

Max Braverman: O Diagnóstico Infantil e a Reconfiguração de uma Família
Já no segundo episódio da primeira temporada, Adam e Kristina Braverman recebem o diagnóstico de que seu filho de oito anos, Max, possui Autismo Nível 1 (na série ainde denominado como Sindrome de Asperger), uma condição do espectro autista. O desencadeador foi um surto na escola, quando Max derrubou e quebrou o aquário da sala de aula. A partir daí, a vida da família muda irreversivelmente.
Max é apresentado como uma criança extremamente inteligente, mas com dificuldades severas de comunicação social. Ele raramente mantém contato visual, fala de forma direta e literal, e desenvolve obsessões intensas, como a campanha para trazer de volta as máquinas de vendas da escola. Essas características, longe de serem exploradas para efeito cômico, são tratadas com a seriedade que merecem, mostrando como cada pequeno avanço social exige esforço monumental.
O impacto do diagnóstico reverbera por toda a estrutura familiar. Haddie, a irmã mais velha de Max, sente ciúmes da atenção que ele recebe, criando uma fenda emocional entre os irmãos. Adam e Kristina, por sua vez, oscilam entre a esperança de que Max possa levar uma vida “normal” e a realidade de que seu caminho será diferente. Em um momento marcante da segunda temporada, Max testemunha uma briga entre Adam e Crosby e, pela primeira vez, aprende sobre seu próprio diagnóstico. A cena em que Kristina e Adam explicam a Max o que significa ter Autismo, destacando tanto suas forças quanto suas limitações, foi inspirada diretamente na experiência pessoal de Jason Katims, que é pai de um filho com a condição. A própria esposa de Katims, Kathy, foi consultada para a cena, e partes de seu discurso real foram incorporadas ao roteiro.
A jornada de Max ao longo das seis temporadas é uma das mais honestas já retratadas na televisão. Ele faz um único amigo verdadeiro, Micah, um garoto com espina bífida, mas acaba alienando-o ao dizer que a obsessão de Micah pelo basquete é “idiota” porque ele está em uma cadeira de rodas e não pode jogar. O momento é brutal na sua honestidade: Max não age por maldade, mas por uma incapacidade genuína de filtrar o impacto emocional de suas palavras. Mais tarde, quando Max decide que uma colega deveria ser sua namorada simplesmente porque ambos torcem para o mesmo time de hóquei, a série captura com precisão a diferença entre desejo romântico e a compreensão mecânica de relacionamentos que muitas vezes acompanha o Autismo.

Hank Rizzoli: Quando o Autismo é Descoberto na Meia-Idade
Se a história de Max representa o caminho conhecido com diagnóstico precoce, intervenção terapêutica, apoio familiar, a de Hank Rizzoli explora um território muito menos visível na cultura popular: a descoberta do autismo na vida adulta.
Introduzido na quarta temporada como um fotógrafo contratado para fazer o retrato da família Braverman, Hank inicialmente parece apenas um homem rabugento e socialmente desajeitado. Ele contrata Sarah como assistente, demite-a por incompetência, e a recontrata de forma truncada porque, como ele mesmo admite, “odeia falar com clientes. Às vezes isso me deixa com náuseas”.
A conexão entre Hank e Max se estabelece quase que instantaneamente. Em sua primeira interação, Hank observa Max colocando azeitonas nos dedos e comenta: “Você é um pouco estranho”. Max responde com um simples “É”, e Hank conclui: “Eu gosto de você”. É um momento aparentemente pequeno, mas carregado de significado: dois indivíduos que operam fora das normas sociais convencionais reconhecem-se mutuamente.
A verdadeira virada ocorre quando Adam dá a Hank um livro sobre o Espectro Autista para que ele entenda melhor como trabalhar com Max no estúdio de fotografia. Ao ler, Hank tem uma epifania perturbadora: “Estou lendo sobre mim”. A frase, dita em um momento de vulnerabilidade rara para o personagem, marca o início de uma jornada de autoconhecimento que se estende por duas temporadas.
A história de Hank é particularmente significativa porque reflete um fenômeno real e crescente: adultos que são diagnosticados com autismo após os filhos receberem o mesmo diagnóstico. Jason Katims, o showrunner, revelou que a trama foi inspirada por uma experiência pessoal. “Quando começamos a fazer a série, fui convidado a falar em uma conferência sobre Autismo e, depois de falar, participei de um dos grupos menores. Eles me colocaram em um grupo com pais, e dois deles haviam sido diagnosticados com Autismo. Eles foram diagnosticados através dos filhos sendo diagnosticados, então veio tarde em suas vidas. Isso é um fenômeno”, explicou Katims. Ele ainda citou um dos pais que disse: “É como se eu finalmente entendesse por que estraguei minha vida toda”.
A jornada de Hank não é linear. Ele consulta o mesmo especialista de Max, o Dr. Pelikan, mas recebe uma resposta que encapsula a complexidade do espectro autista: o diagnóstico é um “jump ball”, ou seja uma bola dividida, algo incerto. Hank nunca passa por uma avaliação formal completa, e Katims manteve essa ambiguidade de propósito. “Para mim, aquela linha era menos sobre o diagnóstico mudar e mais sobre como Hank se vê, o que o leva a tentar mudar e evoluir”, disse o showrunner. A decisão de não resolver definitivamente a condição de Hank foi deliberada: em um espectro tão vasto quanto o autismo, a incerteza é, paradoxalmente, a verdade mais honesta.
O impacto da possível condição de Hank em sua vida adulta é profundo. Ele confronta sua ex-mulher, Sandy, e admite que o casamento fracassou não por algo que ela fez, mas porque ele nunca soube como se comunicar adequadamente com ela. Ele lida com uma filha adolescente, Ruby, que se rebela contra sua rigidez e dificuldade de expressar afeto. E ele precisa aprender, passo a passo, a navegar por um relacionamento romântico com Sarah, algo que exige dele um esforço constante para ler sinais sociais que a maioria das pessoas processa intuitivamente.
Duas Gerações, Um Mesmo Espectro: O Contraste Entre Max e Hank
A coexistência de Max e Hank na narrativa de Parenthood permite uma comparação rica e multifacetada. Max segue um caminho relativamente estruturado, com diagnóstico na infância, acompanhamento especializado, intervenção comportamental e o apoio de pais que, apesar de imperfeitos, estão engajados. Hank, por outro lado, chega à meia-idade sem nunca ter tido um nome para suas dificuldades. Ele construiu um negócio próprio, um casamento, teve uma filha e toda uma vida, mas sempre com a sensação de estar operando sem um manual de instruções que ninguém lhe entregou.
A amizade entre os dois personagens funciona como um espelho distorcido no tempo. Max vê em Hank um possível futuro: um adulto que mantém uma carreira, um relacionamento, uma família, apesar de sua forma única de ver o mundo. Hank, por sua vez, vê em Max uma versão de si mesmo que teve a sorte ou o privilégio de ser compreendida mais cedo. Quando Hank leva Max para sessões de fotografia, a dinâmica entre mentor e aprendiz transcende a mera transferência de habilidades técnicas; é uma troca de estratégias de sobrevivência em um mundo que frequentemente parece hostil às suas diferenças.
A representação de ambos evita a armadilha do “autismo como superpoder” ou do “autismo como tragédia”. Max é brilhante academicamente, mas sua inteligência não o isenta das dores da solidão e da incompreensão. Hank é um profissional bem-sucedido, mas seu sucesso não apaga as frustrações de décadas de mal-entendidos sociais. A série se recusa a transformá-los em símbolos ou em objetos de piedade. Eles são pessoas com defeitos, conquistas, relacionamentos complicados e momentos de pura humanidade.

Longe dos Estereótipos: A Revolução Silenciosa da Representação
A representação do autismo na mídia tem uma história problemática. Por décadas, personagens autistas na TV e no cinema foram reduzidos a caricaturas: o gênio socialmente inepto, a criança-problema que precisa ser “curada”, o adulto desconectado cuja única função narrativa é gerar humor ou tragédia. Parenthood quebra esse padrão de maneiras sutis, mas revolucionárias.
A série evita a medicalização excessiva. Max recebe acompanhamento terapêutico, mas nenhum episódio se resume a uma consulta médica ou a um avanço milagroso. O foco está na vida cotidiana: nas festas de aniversário onde Max não consegue interagir, nas discussões de pais sobre se ele deve ou não frequentar uma escola regular, nas pequenas vitórias e derrotas que compõem a existência de qualquer família.
Parenthood mostra o autismo como uma condição que afeta todo o sistema familiar. A irmã de Max precis aprender a ser paciente; os primos precisam entender por que ele age de formas que parecem estranhas; os avós precisam confrontar suas próprias crenças sobre “normalidade”. A série nunca sugere que o autismo é apenas “problema de Max”, é uma realidade compartilhada que exige adaptação de todos.
A introdução de Hank permite que a série explore o autismo como um espectro que se manifesta de formas distintas ao longo da vida. Katims enfatizou essa diversidade: “Acho que temos que começar a usar a frase ‘autismos’ em vez de ‘autismo’, porque é um espectro tão vasto. Pode parecer tantas coisas diferentes.”. Hank e Max ilustram essa variedade: um é uma criança em desenvolvimento, o outro um adulto de meia-idade; um tem apoio familiar constante, o outro descobriu sozinho; um é verbal e intelectualmente dotado, o outro é criativo e artisticamente talentoso. Nenhum deles é “mais autista” que o outro, são simplesmente diferentes.
O Legado de Parenthood na Representação do Autismo
Mais de uma década após o fim de Parenthood, sua abordagem ao autismo continua relevante. Em uma era em que a representação midiática da neurodiversidade ganhou novas camadas, com séries como Atypical e The Good Doctor explorando o tema de formas diferentes, a obra de Jason Katims permanece como um marco por sua recusa em simplificar.
A série não oferece respostas. Max não é “curado” no final. Hank não recebe um diagnóstico definitivo que resolve todos os seus problemas. O que a série oferece, em vez disso, é uma visão honesta de que viver no espectro autista é uma jornada contínua, feita de pequenos passos, recuos inesperados e momentos de conexão genuína que tornam tudo o resto suportável.
Ao escolher mostrar o autismo através de dois personagens em diferentes fases da vida, Parenthood ampliou a conversa sobre a condição. Não se trata apenas de crianças em salas de aula especiais ou de adultos em ambientes de trabalho protegidos. Trata-se de pais que descobrem que seus filhos são diferentes e precisam redefinir suas expectativas. Trata-se de adultos que, aos 40 ou 50 anos, finalmente entendem por certos padrões de toda uma vida.
A representação do autismo em Parenthood não é perfeita, mas é honesta, é humana e, acima de tudo, é necessária. Em um cenário televisivo frequentemente dominado por estereótipos e simplificações, a série ousou mostrar que o espectro autista é exatamente isso: um espectro. E que, dentro dele, existem histórias infinitas esperando para serem contadas.
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