A Anthropic e a destruição de livros tornaram-se tema de um dos debates mais relevantes da era da inteligência artificial. O caso revelou que a empresa responsável pelo desenvolvimento do Claude adquiriu milhares de livros impressos para digitalização em larga escala, utilizando esse material no treinamento de seus modelos de linguagem. Depois da conversão para o formato digital, esses exemplares físicos foram descartados por causa de um processo que inviabiliza sua preservação.
Embora a prática tenha sido apresentada como uma solução logística para acelerar a digitalização de obras, ela provocou reações que ultrapassam a discussão sobre tecnologia. Escritores, bibliotecários, pesquisadores e especialistas em patrimônio cultural passaram a questionar se a busca por inovação pode justificar a eliminação de exemplares físicos, especialmente quando parte deles era composta por livros esgotados ou de difícil reposição.
O episódio também trouxe à tona um dilema contemporâneo: até que ponto a inteligência artificial pode utilizar o patrimônio cultural produzido ao longo de séculos sem comprometer sua preservação para as próximas gerações?
O caso Anthropic e a destruição de livros
A controvérsia ganhou força durante processos judiciais envolvendo empresas de inteligência artificial e detentores de direitos autorais nos Estados Unidos. Documentos tornados públicos mostraram que a Anthropic estruturou uma operação para adquirir grandes quantidades de livros impressos, removendo suas lombadas para que as páginas fossem digitalizadas por scanners industriais.
Esse procedimento, conhecido internacionalmente como destructive scanning, não surgiu com a inteligência artificial. Há décadas ele é empregado em projetos de digitalização em massa porque oferece velocidade e reduz custos. O problema é que, ao cortar a encadernação, o livro deixa de existir como objeto físico.
Segundo documentos apresentados nos processos, o objetivo da empresa não era criar uma biblioteca digital para consulta pública, mas utilizar o conteúdo textual das obras como parte da base de treinamento do Claude.
Uma das questões que mais chamou atenção foi a natureza das obras adquiridas. Parte dos livros estava fora de catálogo, era difícil de encontrar ou possuía interesse bibliográfico. Embora nem todos possam ser classificados tecnicamente como livros raros, muitos deixaram de circular no mercado editorial há anos, tornando sua reposição praticamente impossível.

Direitos autorais, inteligência artificial e um debate jurídico sem consenso
A destruição física dos livros acabou dividindo espaço com outra discussão igualmente importante: a utilização de obras protegidas por direitos autorais no treinamento de sistemas de inteligência artificial.
A Anthropic sustenta que os livros foram adquiridos legalmente e que o treinamento do modelo constitui um uso transformativo, conceito previsto na legislação norte-americana sobre fair use. Nessa interpretação, a inteligência artificial não reproduziria as obras para consumo do público, mas aprenderia padrões linguísticos, estilos de escrita e relações entre palavras.
Autores, editoras e entidades representativas discordam desse entendimento. Para eles, o treinamento depende necessariamente da reprodução integral das obras, ainda que temporária, o que exigiria autorização ou licenciamento específico.
Até o momento, a questão continua sendo discutida nos tribunais dos Estados Unidos e poderá influenciar toda a indústria da inteligência artificial. As decisões que surgirem nos próximos anos tendem a estabelecer parâmetros para empresas de tecnologia, editoras e criadores de conteúdo em diferentes países.
As repercussões no meio literário e acadêmico
O caso repercutiu muito além do setor tecnológico. Bibliotecários, arquivistas, historiadores do livro e especialistas em preservação passaram a discutir o significado da perda dos exemplares físicos.
Para quem trabalha com patrimônio bibliográfico, um livro nunca é apenas seu texto. A edição, o tipo de papel, a encadernação, a impressão, as ilustrações, as anotações manuscritas, dedicatórias e marcas deixadas por antigos proprietários constituem informações históricas que desaparecem quando o objeto é destruído.
Em muitas áreas da pesquisa acadêmica, essas características são fundamentais. Estudos sobre história editorial, circulação de obras, práticas de leitura e produção gráfica dependem justamente da análise material dos livros.
A digitalização preserva o conteúdo escrito, mas elimina aspectos que fazem parte da memória cultural. Por essa razão, diversos especialistas defendem que projetos de preservação digital sejam acompanhados da conservação dos exemplares físicos sempre que possível.
Outro ponto levantado foi a diferença entre bibliotecas públicas e empresas privadas. Instituições culturais costumam digitalizar livros para ampliar o acesso sem eliminar os originais. No caso da inteligência artificial, a finalidade principal é alimentar modelos comerciais capazes de gerar produtos e serviços.
Essa mudança de finalidade alterou a percepção pública sobre a digitalização em massa.

O prejuízo para a sociedade vai além dos direitos autorais
Grande parte do debate concentrou-se nos direitos autorais, mas o impacto social da destruição de livros é mais amplo.
Livros representam registros da produção intelectual de diferentes épocas. Mesmo quando existem versões digitalizadas, os exemplares físicos continuam sendo fontes para pesquisa e conservação da memória.
Quando um livro é descartado após sua digitalização, perde-se um objeto cultural que pode conter informações inexistentes em arquivos digitais. Pequenas diferenças de impressão, revisões editoriais, capas, prefácios e até erros tipográficos ajudam pesquisadores a reconstruir a trajetória de uma obra ao longo do tempo.
Há também uma questão simbólica. Durante séculos, a destruição de livros esteve associada à censura, guerras e tentativas de apagar conhecimentos considerados inconvenientes. Evidentemente, o caso da Anthropic possui outra natureza. O objetivo não foi eliminar ideias, mas aproveitar seu conteúdo para treinamento computacional.
Ainda assim, o episódio desperta um desconforto semelhante ao evidenciar que o livro passou a ser tratado como matéria-prima descartável em uma cadeia de produção tecnológica.
Esse aspecto explica por que o caso gerou repercussão mesmo entre pessoas favoráveis ao avanço da inteligência artificial.
O desafio de conciliar inovação e preservação cultural
A inteligência artificial já ocupa espaço crescente na produção de textos, pesquisas, tradução, programação e educação. Seu desenvolvimento depende de grandes volumes de informação, e os livros constituem uma das fontes mais valiosas para esse aprendizado.
Ao mesmo tempo, o patrimônio bibliográfico representa uma parte essencial da memória coletiva da humanidade. Conciliar essas duas necessidades será um dos grandes desafios das próximas décadas.
Especialistas defendem alternativas como acordos de licenciamento com editoras, utilização de bibliotecas digitais autorizadas, remuneração de autores e preservação dos exemplares físicos empregados em processos de digitalização.
Independentemente do desfecho jurídico, o caso Anthropic tornou-se um marco na discussão sobre os limites éticos da inteligência artificial. Mais do que um conflito entre empresas de tecnologia e detentores de direitos autorais, ele evidencia que o avanço tecnológico também exige responsabilidade com a preservação da cultura material.
A história do livro sempre acompanhou as transformações da sociedade, da imprensa de tipos móveis às bibliotecas digitais. O surgimento da inteligência artificial representa mais um capítulo dessa trajetória. A diferença é que, desta vez, a velocidade da inovação obriga a sociedade a decidir quais elementos do passado podem ser destruídos no processo e quais precisam continuar existindo também em suas formas originais.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.


