Marjane Satrapi, a quadrinista franco-iraniana que transformou sua infância em Teerã em uma das obras mais importantes da literatura gráfica contemporânea, morreu no dia 4 de junho de 2026, aos 56 anos.
A notícia foi confirmada pelo Palácio do Eliseu, em Paris, que a descreveu como “uma artista apaixonada pela liberdade, cujas obras estavam impregnadas de uma mensagem universal”. A morte de Marjane Satrapi marca o fim de uma trajetória que atravessou fronteiras geográficas, culturais e artísticas para dar rosto e voz a uma geração de iranianos silenciados pela revolução.

A menina que cresceu entre revoluções
Marjane Satrapi nasceu em 22 de novembro de 1969, na cidade de Rasht, no Irã. Filha única de um engenheiro e de uma estilista, mudou-se ainda criança para Teerã, onde frequentou o Liceu Francês e cresceu em um ambiente de intelectuais com inclinações comunistas. Essa formação familiar progressista, secular e aberta ao ocidente, colocou seus pais sob o radar das autoridades após a Revolução Iraniana de 1979, que derrubou o regime do Xá e instaurou uma república islâmica.
Em 1984, aos 14 anos, Satrapi foi enviada pelos pais para estudar na Áustria, uma decisão tomada para protegê-la da crescente repressão do novo regime. Na Europa, porém, a jovem encontrou outro tipo de dificuldade: o isolamento, a alienação cultural e uma espiral de degradação que a levou às ruas e ao uso de drogas. Retornou ao Irã aos 19 anos, estudou artes, passou por um casamento breve e, em 1993, partiu definitivamente para a França, onde concluiu seus estudos em artes e estabeleceu residência permanente em Paris.
A trajetória de Satrapi não se resume a uma narrativa de exílio. Ela foi, antes de tudo, uma mulher que aprendeu a traduzir a dor da perda do país, da identidade, da infância, em linguagem visual. E foi essa habilidade que a tornaria uma das figuras mais reconhecidas no mundo no universo das graphic novels.
Persépolis: uma infância iraniana transformada em fábula universal
Publicado originalmente em quatro volumes na França entre 2000 e 2003, Persépolis é o trabalho que define a carreira de Satrapi e que a colocou no centro das discussões sobre literatura gráfica, memória e identidade cultural. A obra, que combina o formato de história em quadrinhos com a estrutura de uma narrativa memorialística, narra a infância e a adolescência da autora em Teerã durante e após a Revolução Iraniana, passando pela Guerra Irã-Iraque (1980-1988), pela imposição do véu islâmico, pela repressão política e pelo exílio forçado.
O estilo visual de Satrapi é deliberadamente minimalista, com traços em preto e branco que evocam o expressionismo alemão. Essa escolha estética não é apenas uma marca pessoal, ela serve como contraponto à densidade emocional do conteúdo. Em Persépolis, a menina Marjane usa tênis da Nike e ouve rock ocidental, mas é ameaçada de prisão por usar esses mesmos tênis em ruas devastadas por bombardeios. A familiaridade dessas contradições, vivendo uma adolescência comum em um contexto extremo, é o que tornou a obra acessível a leitores de todo o mundo.
A recepção de Persépolis foi imediata e massiva. A obra vendeu milhões de cópias e foi traduzida para mais de 20 idiomas. Em 2019, figurou na 47ª posição da lista dos 100 melhores livros do século XXI do The Guardian; em 2024, ocupou a 48ª posição na lista equivalente do The New York Times.
A adaptação cinematográfica, lançada em 2007 e co-dirigida por Satrapi ao lado de Vincent Paronnaud, estreou no Festival de Cannes, onde dividiu o Prêmio do Júri com Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas. A versão em inglês do filme, com vozes de Gena Rowlands, Sean Penn e Iggy Pop, foi indicada ao Oscar de Melhor Animação em 2008, tornando Satrapi a primeira mulher na história a receber uma indicação nessa categoria.
O sucesso, porém, veio acompanhado de controvérsia. O governo iraniano denunciou o filme e conseguiu sua retirada do Festival Internacional de Cinema de Bangkok. Nos Estados Unidos, em 2013, as escolas de Chicago receberam ordem para remover Persépolis das salas de aula sob alegação de linguagem e violência gráfica excessivas. A proibição gerou protestos e debate público, reforçando o papel da obra como objeto de disputa cultural.

Além de Persépolis: uma carreira multifacetada
A produção de Satrapi não se limitou à obra que a consagrou. Entre seus trabalhos subsequentes estão Bordados (2003), Frango com Ameixas (2004) e a antologia Mulher, vida, Liberdade (2023), organizada em apenas cinco meses e reunindo artistas e acadêmicos em torno da morte de Mahsa Amini e dos protestos que se seguiram em 2022.
Como cineasta, Satrapi dirigiu Frango com Ameixas (2011), em parceria novamente com Paronnaud; La Bande des Jotas (2012); The Voices (2014), com Ryan Reynolds e Anna Kendrick; e Radioactive (2019), biografia de Marie Curie estrelada por Rosamund Pike. Cada um desses filmes demonstra uma vontade de escapar da zona de conforto, indo da animação intimista ao thriller psicológico, do drama histórico à comédia criminal.

A voz que não se calou diante da repressão
Marjane Satrapi nunca deixou de se posicionar politicamente. Ela foi uma crítica contumaz do governo iraniano e uma defensora intransigente dos direitos das mulheres. A imposição do hijab após a revolução, que ela descreveu como uma barreira à sua liberdade de expressão: “ter que usar algo que não quero usar, não poder expressar exatamente o que quero, isso era algo que eu simplesmente não conseguia suportar”.
Em 2022, Satrapi tornou-se uma das vozes mais visíveis do movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, desencadeado pela morte de Mahsa Amini nas mãos da polícia moral iraniana. Em entrevista à NPR em 2024, ela expressou esperança de que a coragem dos jovens iranianos levaria, mais cedo ou mais tarde, ao colapso do regime.
Sua recusa em 2025 à Legião de Honra, a mais alta condecoração da França, revelou a coerência de seu posicionamento: Satrapi recusou a honraria em protesto contra o que considerava uma “atitude hipócrita” do governo francês em relação ao Irã, argumentando que os iranianos não precisavam de “comunicação”, mas de “ações concretas”.
A morte de um amor e o silêncio final
A morte de Marjane Satrapi, segundo fontes próximas citadas pelo jornal Le Monde, teria sido causada por “tristeza”, pouco mais de um ano após a perda de seu marido, o ator e roteirista Mattias Ripa. Satrapi havia escrito nas redes sociais, na ocasião: “Perdi o amor da minha vida”.
A informação, ainda que não oficialmente confirmada como causa médica, ecoa com uma ironia dolorosa: uma mulher que dedicou sua vida a dar voz ao silenciamento encontrou, ao final, no próprio silenciamento, uma forma de partida.
O presidente francês Emmanuel Macron prestou homenagem à artista, chamando-a de “uma grande artista que transformou uma infância iraniana em fábula universal”. A presidente da Assembleia Nacional da França, Yaël Braun-Pivet, escreveu que o país havia perdido “uma artista imensa” que “havia transformado sua obra em um ato de liberdade”.
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