Uma Biblioteca em Osasco, a Biblioteca Pública Monteiro Lobato, esteve no centro de uma controvérsia recente após o descarte de livros e documentos em caçambas de lixo, episódio ocorrido na semana do Dia Internacional do Livro, celebrado em 23 de abril.
O caso, registrado por moradores e repercutido por veículos de imprensa, revelou o destino inadequado de parte do acervo público e um problema mais amplo: o abandono prolongado de um dos principais equipamentos culturais do município.

Livros descartados na semana do Dia do Livro
O episódio ganhou visibilidade quando imagens mostraram exemplares da Biblioteca Municipal de Osasco sendo jogados fora durante a semana em que se celebra o livro e a leitura. A coincidência temporal acentuou a reação negativa, mas o problema vai além do simbolismo.
Segundo reportagens e registros locais, os materiais descartados incluíam livros literários, didáticos e documentos administrativos. A prefeitura informou que parte do acervo estava comprometida por mofo e fungos, o que justificaria o descarte. Ainda assim, a forma como o processo foi conduzido, sem transparência prévia ou comunicação pública detalhada, levantou questionamentos sobre critérios técnicos e possíveis alternativas.
Em procedimentos biblioteconômicos padrão, o descarte de acervo envolve triagem, catalogação e, quando viável, doação ou redistribuição. A ausência visível dessas etapas no caso de Osasco gerou críticas de profissionais da área e da população.
Biblioteca fechada desde 2020 e sem previsão de reabertura
Um equipamento cultural inativo há anos
A situação do acervo está diretamente ligada ao fechamento da Biblioteca Municipal, que permanece sem funcionamento desde 2020. Inicialmente fechado durante a pandemia, o espaço não foi reaberto, mesmo após anúncios de reforma e modernização.
Ao longo dos últimos anos, diferentes prazos de entrega foram divulgados, mas não se consolidaram em uma reabertura efetiva. O resultado é um equipamento público essencial fora de operação por mais de seis anos.
Consequências diretas para a população
A ausência da biblioteca impacta principalmente estudantes da rede pública, pesquisadores independentes e leitores que dependem do acesso gratuito ao livro. Em cidades com desigualdade de renda como Osasco, a biblioteca pública cumpre papel estratégico na democratização do conhecimento.
Além disso, a biblioteca também funciona como espaço de convivência cultural. Sua ausência prolongada reduz as possibilidades de formação crítica e acesso à produção intelectual, especialmente em regiões periféricas.

Acervo perdido e obras de autores locais
Perdas que não podem ser repostas
Entre os livros descartados, há relatos consistentes da presença de obras de autores locais, materiais que dificilmente podem ser recuperados. Diferentemente de títulos comerciais, muitas dessas publicações são independentes, com tiragens limitadas e sem reedição.
A perda desse tipo de acervo não é apenas quantitativa. Trata-se de um impacto direto sobre a memória cultural da cidade, já que esses livros documentam experiências, narrativas e perspectivas ligadas ao território.
Fragilidade da preservação cultural
As bibliotecas públicas desempenham papel fundamental na preservação de produções locais. Quando esse acervo não é devidamente protegido, abre-se espaço para o desaparecimento de registros que não existem em outros suportes.
O caso de Osasco evidencia essa fragilidade. Sem políticas consistentes de preservação, a produção cultural local permanece vulnerável a decisões administrativas pontuais.
Memória urbana e o papel das bibliotecas públicas
Mais do que acesso à leitura
A função de uma biblioteca pública vai além do empréstimo de livros. Ela atua como um centro de memória, reunindo documentos, registros históricos e produções culturais que ajudam a compreender a formação da cidade.
No caso de Osasco, cuja história está ligada ao desenvolvimento industrial e aos fluxos migratórios, o acervo bibliográfico e documental tem valor estratégico para pesquisadores, estudantes e para a própria construção da identidade local.
O impacto do descarte na história da cidade
O descarte de documentos sem critérios transparentes compromete a preservação dessa memória. Registros administrativos, obras literárias e materiais históricos formam um conjunto que permite reconstruir o passado urbano.
Quando esses elementos são eliminados, a cidade perde parte de sua capacidade de narrar a própria história, afetando diretamente o campo acadêmico e o senso de pertencimento da população.

Gestão pública e responsabilidade sobre o patrimônio cultural
Falta de transparência e planejamento
O caso da Biblioteca em Osasco evidencia falhas na gestão cultural municipal. A ausência de comunicação clara sobre o estado do acervo, os critérios de descarte e o cronograma de reabertura da biblioteca contribuiu para a percepção de desorganização.
A justificativa técnica da presença de mofo é plausível em acervos fechados por longos períodos. No entanto, especialistas apontam que existem protocolos para recuperação, isolamento e avaliação do material antes de qualquer descarte definitivo.
Cultura como política pública
A manutenção de bibliotecas públicas é uma atribuição básica do poder público. Isso envolve infraestrutura, gestão qualificada do acervo e políticas de acesso.
Quando esses elementos falham, os efeitos se espalham por diferentes áreas: educação, cultura e participação cidadã. O episódio recente em Osasco ilustra como a negligência em um setor pode gerar perdas difíceis de reverter.
Entre o abandono e a necessidade de reconstrução
A repercussão do caso indica que há sensibilidade social em relação à preservação cultural. A reação negativa ao descarte dos livros mostra que a biblioteca ainda é percebida como um patrimônio coletivo relevante.
No entanto, a situação atual exige mais do que reação pontual. A reabertura da biblioteca, a recomposição do acervo e a implementação de políticas de preservação são medidas necessárias para evitar novos episódios.
O episódio envolvendo a Biblioteca Monteiro Lobato não se limita ao descarte de livros. Ele revela um processo mais amplo de descontinuidade institucional e fragilidade na gestão cultural.
A perda de acervo, especialmente de obras locais, representa um dano que ultrapassa o campo material. Trata-se de um impacto direto sobre a memória da cidade e sobre o acesso ao conhecimento.
Sem ações estruturais, o risco não se restringe à repetição de episódios semelhantes em outras localidades, pode ser uma consolidação de um cenário em que a cultura deixa de ser tratada como um elemento central e essencial da vida urbana.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.


