THE VELVET SUNDOWN

The Velvet Sundown e a Miragem da Música Criada por IA 

Sociedade

A banda The Velvet Sundown, que surgiu aparentemente do nada em junho de 2025, desencadeou um debate acalorado sobre autenticidade na indústria musical.  

Com mais de 900 mil ouvintes mensais no Spotify e dois álbuns lançados em um único mês, a ascensão meteórica do grupo chamou a atenção não apenas pela música, mas por suspeitas de que a banda poderia não existir de fato.  

Acusações de que a inteligência artificial (IA) gerou as músicas, imagens e até os membros da banda levantaram questões cruciais sobre o papel da IA na criação musical e suas implicações para artistas, plataformas e ouvintes. Esse fenômeno, que mistura criatividade humana com conteúdo gerado por máquinas, desafia os limites da arte e da autenticidade na era digital. 

A Ascensão Repentina de uma Banda Misteriosa 

Uma Presença Fantasma no Streaming 

Em junho de 2025, uma banda chamada The Velvet Sundown apareceu em grandes plataformas de streaming como Spotify, Apple Music e Deezer, com o álbum de estreia Floating on Echoes, seguido rapidamente por um outro álbum, o Dust and Silence.  

A biografia no Spotify descrevia uma banda de quatro membros, o vocalista Gabe Farrow, o guitarrista Lennie West, o baixista Milo Rains e o percussionista Orion “Rio” Del Mar, misturando rock psicodélico dos anos 1970 com pop alternativo moderno. Suas músicas, com letras oníricas como “olhos como filme em luz desbotada” e “cinzas e veludo, fumaça e chama”, conquistaram ouvintes, acumulando centenas de milhares de reproduções em semanas.  

Em julho, a faixa principal, “Dust on the Wind”, alcançou quase 500 mil plays, e os ouvintes mensais ultrapassaram 900 mil, rivalizando com artistas consagrados. No entanto, a ausência de uma presença digital verificável, sem entrevistas, shows ao vivo ou contas pessoais nas redes sociais, despertou curiosidade e desconfiança entre fãs e críticos. 

Uma Ilusão Cuidadosamente Construída 

O perfil verificado da banda no Spotify, com uma biografia poética afirmando que eles “soam como a memória de um tempo que nunca aconteceu de verdade”, aumentou o mistério.  

O Instagram da banda, criado em 27 de junho de 2025, exibia imagens hiper-realistas dos supostos membros, incluindo paródias de capas icônicas como Abbey Road dos Beatles. Contudo, essas fotos apresentavam sinais de geração por IA: texturas excessivamente suaves, sombras improváveis e um brilho artificial. Uma citação supostamente da Billboard na biografia da banda no Spotify, “Eles soam como a memória de algo que você nunca viveu”, posteriormente revelada como falsa, intensificou as dúvidas sobre a legitimidade da banda.  

Playlists como “Vietnam War Music” e “Solitude Collective”, algumas com mais de 600 mil salvamentos, impulsionaram inexplicavelmente as faixas da banda, sugerindo manipulação algorítmica ou posicionamento estratégico em playlists. 

THE VELVET SUNDOWN - MÚSICA GERADA POR IA

A Sombra da Inteligência Artificial 

Suspeitas de uma Banda Gerada por IA 

As suspeitas sobre a autenticidade do The Velvet Sundown começaram em plataformas como Reddit e TikTok, onde usuários como Chris Dalla Riva apontaram a falta de uma presença verificável da banda.  

A ausência de shows ao vivo, entrevistas ou qualquer rastro dos membros online levou a acusações de que a banda era um produto de ferramentas de IA, como o Suno, que pode gerar músicas, letras e vocais a partir de prompts de texto.  

A Deezer, uma plataforma concorrente, marcou os álbuns da banda com um aviso: “Algumas faixas deste álbum podem ter sido criadas usando inteligência artificial”. A ferramenta de detecção de IA da Deezer classificou a música como “100% gerada por IA”, enquanto o Spotify permaneceu em silêncio sobre o assunto.  

As contas de redes sociais da banda reagiram, com postagens no X afirmando: “Essa é a nossa música, escrita em noites longas e suadas em um bangalô apertado na Califórnia, com instrumentos reais, mentes reais e alma real”. Sem evidências como vídeos de ensaios, essas negações soaram vazias. 

A Farsa que Alimentou o Debate 

A controvérsia se intensificou quando um suposto porta-voz, Andrew Frelon, disse à revista Rolling Stone que o The Velvet Sundown usava o Suno para criar suas músicas, apresentando o projeto como uma “farsa artística” destinada a provocar.  

Dias depois, Frelon admitiu no Medium que não tinha nenhuma ligação com a banda e havia inventado seu papel, aproveitando a falta de presença nas redes sociais para se passar por representante. Essa revelação complicou ainda mais o caso, mas a biografia atualizada da banda no Spotify finalmente confirmou o que muitos suspeitavam: “The Velvet Sundown é um projeto musical sintético guiado por direção criativa humana, composto, vocalizado e visualizado com o suporte de inteligência artificial”.  

Essa admissão esclareceu que a banda não era um grupo tradicional, mas uma fusão de intenção humana e ferramentas de IA, desafiando os ouvintes a repensarem suas noções e percepções sobre autenticidade. 

THE VELVET SUNDOWN - STREAMING DE MÚSICA

O Futuro da Música em um Mundo Movido a IA 

Desafios Éticos e Econômicos 

O rápido sucesso do The Velvet Sundown levanta preocupações éticas significativas para a indústria musical.  

Ed Newton Rex, fundador da Fairly Trained, argumenta que a música gerada por IA representa um “roubo disfarçado de competição”, já que ferramentas de IA treinadas com o trabalho de artistas reais, inundam plataformas com imitações, desviando receita de músicos humanos. Com pagamentos do Spotify variando entre US$ 0,003 e US$ 0,005 por reprodução, os milhões de streams do The Velvet Sundown poderiam gerar milhares de dólares mensais, potencialmente às custas de artistas autênticos que lutam por visibilidade.  

Sophie Jones, da BPI (British Phonographic Industry – associação comercial da indústria de música gravada do Reino Unido), enfatizou a necessidade de ações governamentais para abordar o impacto da IA nos direitos musicais, observando que a indústria enfrenta uma “corrida” para regular os produtos de IA.  

A falta de divulgação obrigatória de conteúdo gerado por IA em plataformas como o Spotify agrava o problema, deixando os ouvintes alheios ao que estão consumindo. 

Redefinindo Criatividade e Autenticidade 

O caso do The Velvet Sundown provoca uma reflexão mais ampla sobre o que constitui arte na era da IA. Sua música, descrita como “nem boa, nem ruim”, integra-se perfeitamente a playlists algorítmicas, funcionando como trilha sonora de fundo em vez de uma declaração artística profunda.  

Esse comportamento está alinhado com uma tendência mais ampla em que plataformas de streaming priorizam a escuta passiva em detrimento do engajamento ativo, um movimento que precede a IA, mas que foi amplificado por ela. Enquanto alguns defendem a IA como uma ferramenta criativa, comparando-a ao autotune ou sintetizadores, críticos como Nick Cave alertam para seu “efeito humilhante” na criatividade humana.  

O sucesso do The Velvet Sundown, possivelmente auxiliado por bots ou manipulação de playlists, evidencia como algoritmos podem amplificar conteúdo artificial, marginalizando artistas menores, que lamentam o esforço necessário para competir com faixas “sem humanos”, esforço este injusto e improdutivo. 

Um Chamado por Transparência e Regulamentação 

A indústria musical enfrenta agora um momento decisivo. A abordagem proativa da Deezer marcando faixas geradas por IA e excluindo-as de recomendações algorítmicas contrasta com a permissividade do Spotify, que permite músicas de IA sem indicação. 

Essa discrepância destaca a necessidade de padrões unificados para garantir transparência. À medida que ferramentas de IA como Suno e Udio se tornam mais sofisticadas, a linha entre música humana e gerada por máquinas se torna cada vez mais indistinta, levantando questões sobre se o conteúdo de IA deve ser rebaixado em playlists ou desmonetizado para proteger artistas humanos.  

O caso do The Velvet Sundown, seja esta uma brincadeira artística ou um experimento calculado, serve como um espelho que reflete a falta de preparo da indústria para o potencial disruptivo da IA. Sua biografia chama isso de “provocação”, mas o verdadeiro desafio está em equilibrar inovação com justiça em um cenário musical em rápida mudança e que não sabemos qual será seu futuro, se com músicos reais ou com combinações binárias geradas por um robô.