O fim do New START, tratado bilateral entre Estados Unidos e Rússia que expirou em 5 de fevereiro de 2026, representa um momento crítico na geopolítica global. Sem renovação ou acordo substituto, o mundo entra em uma era sem limites verificáveis sobre arsenais nucleares estratégicos, elevando riscos de uma nova corrida armamentista.
Esse evento reflete tensões persistentes entre potências e ressalta a urgência de compreender o legado das armas atômicas por meio da literatura, que oferece perspectivas históricas, éticas e humanas sobre o poder destrutivo da tecnologia nuclear.

O Legado do Tratado New START
Assinado em 2010 por Barack Obama e Dmitry Medvedev, o New START, sigla para Treaty on Measures for the Further Reduction and Limitation of Strategic Offensive Arms, sucedeu acordos anteriores como o START I de 1991 e o SORT de 2002.
Seu objetivo principal era reduzir e limitar ogivas nucleares estratégicas, lançadores e bombardeiros pesados, promovendo transparência por meio de inspeções mútuas e trocas de dados. Sob o tratado, cada lado se comprometeu a manter no máximo 1.550 ogivas nucleares implantadas, 700 lançadores implantados e 800 lançadores totais, incluindo mísseis intercontinentais e submarinos.
A história do New START remonta ao fim da Guerra Fria, quando os Estados Unidos e a União Soviética, e posteriormente a Rússia, buscaram mecanismos para mitigar o risco de aniquilação mútua. O tratado entrou em vigor em 5 de fevereiro de 2011, com duração inicial de dez anos, prorrogável por mais cinco. Em 2021, Joe Biden e Vladimir Putin estenderam o acordo até 2026, mas crescentes desentendimentos, agravados pela invasão russa à Ucrânia em 2022, levaram à suspensão russa de sua participação em 2023. Putin citou ações ocidentais, como o apoio à Ucrânia, como justificativa para pausar inspeções e notificações.
Apesar de propostas tardias, como a sugestão de Putin em setembro de 2025 para observar limites por mais um ano sem verificação formal, não houve consenso. Donald Trump, em entrevistas, expressou interesse em um “acordo melhor”, mas sem detalhes concretos.
A expiração do tratado em 2026 ocorre em um contexto de expansão nuclear chinesa e avanços tecnológicos, como mísseis hipersônicos, que complicam o equilíbrio estratégico. Sem o New START, perde-se um canal vital de diálogo, o Bilateral Consultative Commission, que resolvia disputas e fomentava confiança.
Do ponto de vista social, o fim do tratado amplifica preocupações sobre proliferação nuclear. Organizações como a Nuclear Threat Initiative alertam para o risco de arms races descontroladas, onde a falta de transparência pode levar a mal-entendidos e escaladas acidentais. Politicamente, isso reflete o declínio do multilateralismo, com implicações para tratados como o TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear).
No Brasil, país signatário do TNP e defensor do desarmamento, o evento reforça debates sobre soberania e segurança global, especialmente em um mundo multipolar.
Livros que Revelam o Poder das Bombas Atômicas
A literatura oferece ferramentas poderosas para decifrar o impacto humano e ético das armas nucleares. Escolhi algumas obras, publicadas por editoras brasileiras, que mergulham na história do desenvolvimento atômico, nas decisões políticas e nas consequências sociais, conectando o passado ao presente incerto pós-New START.

Oppenheimer: O Triunfo e a Tragédia do Prometeu Americano
Kai Bird e Martin J. Sherwin, em “Oppenheimer: O Triunfo e a Tragédia do Prometeu Americano” (Editora Intrínseca, 2023), traçam a biografia definitiva de J. Robert Oppenheimer, diretor científico do Projeto Manhattan.
Obra vencedora do Prêmio Pulitzer em 2006 na versão original, retrata o físico como uma figura complexa: gênio intelectual que liderou a criação da bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial, mas atormentado por dilemas morais após os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki.
O livro detalha o contexto do Projeto Manhattan, iniciado em 1942 sob medo de que a Alemanha nazista desenvolvesse armas nucleares primeiro. Bird e Sherwin exploram as pressões políticas sobre Oppenheimer, incluindo sua posterior perseguição durante o Macarthismo, quando foi acusado de simpatias comunistas e teve sua credencial de segurança revogada em 1954. Essa narrativa ilustra como o poder nuclear entrelaça ciência, política e sociedade, com Oppenheimer citando o Bhagavad Gita ao ver o teste Trinity: “Agora eu me tornei a Morte, o destruidor de mundos”.
Relevante ao fim do New START, o livro destaca os perigos de decisões unilaterais em arsenais nucleares, com preocupações atuais sobre controle e ética. Com mais de 700 páginas, a edição da Intrínseca inclui atualizações baseadas no filme de Christopher Nolan, tornando-a acessível para leitores interessados em história e cinema.

Trinity: A História em Quadrinhos da Primeira Bomba Atômica
Jonathan Fetter-Vorm apresentou em “Trinity: A História em Quadrinhos da Primeira Bomba Atômica” (Editora Três Estrelas, 2013) uma narrativa gráfica sobre o teste nuclear Trinity, realizado em 16 de julho de 1945 no deserto do Novo México. Essa graphic novel combina ilustrações impactantes com fatos históricos, explicando conceitos científicos como fissão nuclear de forma acessível, enquanto aborda as implicações éticas da corrida armamentista.
O autor reconta a colaboração entre cientistas como Oppenheimer, Enrico Fermi e Richard Feynman, sob o manto de sigilo do Projeto Manhattan. Fetter-Vorm não glorifica a tecnologia; em vez disso, enfatiza o custo humano, conectando o teste aos bombardeios subsequentes e ao início da Era Atômica. Infelizmente, essa edição está esgotada nas livrarias convencionais, disponível apenas em sebos ou plataformas de usados, o que reflete seu status de obra cult entre entusiastas de história em quadrinhos.
No contexto do fim do New START, “Trinity” serve como lembrete visual dos primórdios da dissuasão nuclear, questionando se tratados como o expirado poderiam ter evitado escaladas. Sua abordagem multimodal – texto e imagens – atrai leitores jovens, promovendo discussões sociais sobre desarmamento em um mundo onde armas nucleares ainda ameaçam a estabilidade global.

Livro “Contagem Regressiva 1945” – Chris Wallace (Editora Altacult)
Contagem Regressiva 1945: A Extraordinária História da Bomba Atômica e os 116 Dias que Mudaram o Mundo
Chris Wallace, em “Contagem Regressiva 1945: A Extraordinária História da Bomba Atômica e os 116 Dias que Mudaram o Mundo” (Editora Alta Cult, 2021), oferece um relato cronológico dos eventos que culminaram nos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki. O livro foca nos 116 dias entre a morte de Franklin D. Roosevelt em abril de 1945 e a rendição japonesa em agosto, destacando decisões de Harry Truman e o papel de figuras como Oppenheimer e o general Leslie Groves.
Wallace, jornalista veterano, usa diários, memorandos e entrevistas para humanizar o processo, revelando debates internos sobre o uso da bomba, alternativa a uma invasão terrestre que poderia custar milhões de vidas. O texto explora o impacto social, incluindo o surgimento do complexo militar-industrial e as raízes da Guerra Fria, onde o monopólio nuclear americano logo enfrentou o soviético.
Essa obra ilustra como acordos de limitação surgiram da necessidade de conter a proliferação desse tipo de armas pós-1945.

Hiroshima
John Hersey, em “Hiroshima” (Companhia das Letras, 2002), entrega um clássico do jornalismo literário, originalmente publicado na revista The New Yorker em 1946. O livro segue seis sobreviventes de Hiroshima, um clérigo, uma costureira, dois médicos, um padre jesuíta e uma viúva, no dia do bombardeio em 6 de agosto de 1945 e nos meses seguintes, capturando o horror imediato e as sequelas de longo prazo.
Hersey evita sensacionalismo, focando em relatos pessoais que revelam o sofrimento humano: queimaduras, radiação e colapso social. Essa abordagem sublinha as consequências da guerra nuclear, influenciando movimentos antinucleares globais. A edição da Companhia das Letras, com posfácio de Matinas Suzuki Jr., atualiza o contexto para leitores brasileiros.
Hiroshima reforça a necessidade de empatia histórica, mostrando como tratados falhados podem levar a catástrofes semelhantes. Sua brevidade, cerca de 150 páginas, torna a obra essencial para entender o custo humano por trás da diplomacia nuclear.
A Necessidade de Recordar a História Nuclear
Conhecer a história das armas nucleares transcende o acadêmico; é uma ferramenta para aumentar a pressão política por desarmamento. Com o fim do New START, obras como essas incentivam reflexões sobre o equilíbrio entre segurança e humanidade, exigindo que líderes priorizem diálogos em vez de confrontos.
Em uma era de incertezas geopolíticas, a literatura permanece um farol para navegar os perigos atômicos, promovendo uma sociedade mais informada e vigilante.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.


