Reassistir a Hairspray (2007) é uma experiência que transcende a simples nostalgia por musicais leves. Dirigido por Adam Shankman e baseado no premiado musical da Broadway de 2002, que por sua vez adaptou o filme independente de John Waters de 1988, o longa-metragem utiliza a estética vibrante dos anos 1960 para dissecar um dos períodos mais sombrios da história americana.
Entre coreografias e números musicais contagiantes, Hairspray constrói uma narrativa que confronta o espectador com a brutal realidade das Leis Jim Crow, revelando como o entretenimento popular serviu tanto como instrumento de opressão quanto de resistência racial.
De Baltimore aos Palcos da Broadway: A Jornada de Hairspray
A história de Hairspray começou longe dos holofotes de Hollywood. Em 1988, John Waters, cineasta independente conhecido por obras transgressoras como Pink Flamingos, escreveu e dirigiu uma comédia musical ambientada em 1962, na cidade de Baltimore, Maryland.
O filme original, estrelado por Ricki Lake e Divine, arrecadou modestos US$ 8 milhões nas bilheterias, mas conquistou status de cult ao longo dos anos seguintes, especialmente após seu lançamento em vídeo no início dos anos 1990. A produção chamou atenção por ser uma drástica mudança de tom no trabalho de Waters: recebeu classificação PG, a menos restritiva de toda sua filmografia, que habitualmente enfrentava censuras mais severas.
A transformação de filme de cult em fenômeno da Broadway ocorreu em 2002, quando o compositor Marc Shaiman e a letrista Scott Wittman adaptaram a obra para os palcos. O musical conquistou oito prêmios Tony, incluindo Melhor Musical em 2003, solidificando seu lugar no panteão dos espetáculos teatrais americanos.
A versão cinematográfica de 2007, que estreou em 19 de julho nos Estados Unidos, reuniu um elenco estelar incluindo Nikki Blonsky como Tracy Turnblad, John Travolta no papel de Edna Turnblad, Michelle Pfeiffer como a vilã Velma Von Tussle, e Queen Latifah interpretando Motormouth Maybelle.
A recepção da crítica foi amplamente positiva. O Metacritic atribuiu ao filme uma pontuação de 81 em 100, baseado em 37 críticos, indicando “aclamação universal”. O Rotten Tomatoes registra consenso favorável, destacando como Shankman capturou “a essência da magia do show da Broadway e o valor camp atemporal do filme original”. No entanto, o verdadeiro mérito da obra reside menos em suas avaliações técnicas e mais em sua capacidade de usar o formato acessível do musical para discutir temas que, décadas após os eventos retratados, permanecem dolorosamente relevantes.

1962: O Ano em que a América Confrontou Suas Contradições
Para compreender plenamente a tensão dramática de Hairspray, é necessário contextualizar o ano de 1962. Os Estados Unidos viviam um momento de profunda transformação social e política. A Guerra Fria atingia seu ápice, com a Crise dos Mísseis de Cuba colocando o mundo à beira de um conflito nuclear. No âmbito doméstico, porém, outra batalha se desenrolava: a luta pelos direitos civis da população afro-americana.
As Leis Jim Crow, em vigor desde 1877, institucionalizaram a segregação racial em praticamente todos os aspectos da vida pública americana. O sistema operava sob a doutrina “separados, mas iguais”, sancionada pela Suprema Corte em 1896 no caso Plessy v. Ferguson, embora na prática resultasse em tratamento inferior para cidadãos negros em escolas, transportes, restaurantes, bebedouros e instalações públicas.
Em 1962, essas leis ainda vigoravam firmemente nos estados do Sul, incluindo Maryland, onde se passa a narrativa de Hairspray.
O movimento pelos direitos civis ganhava força. Em 1955, o boicote aos ônibus de Montgomery, desencadeado pela recusa de Rosa Parks em ceder seu assento a um passageiro branco, havia demonstrado a eficácia da resistência organizada.
Em 1963, um ano após os eventos finais do filme, Martin Luther King Jr. proferiria seu icônico discurso “I Have a Dream” durante a Marcha sobre Washington. A pressão popular resultaria na Lei dos Direitos Civis de 1964, que finalmente proibiria a discriminação racial baseada em raça, cor, religião, sexo ou nacionalidade.
Paralelamente, o macarthismo, período de caça às bruxas contra supostos simpatizantes comunistas, deixava sequelas profundas na indústria do entretenimento. A Hollywood Blacklist, estabelecida no final dos anos 1940, impedia que profissionais acusados de ligações comunistas trabalhassem em filmes, televisão e rádio.
O Comitê de Atividades Anti-Americanas da Câmara (HUAC) continuava suas investigações, criando um clima de paranóia e autocensura que persistia mesmo quando a histeria anticomunista começava a diminuir no início dos anos 1960.
O Racismo no Espelho da Televisão
A narrativa de Hairspray centra-se em The Corny Collins Show, programa de dança para adolescentes baseado no Buddy Deane Show real, que efetivamente existiu em Baltimore entre 1957 e 1964.
No universo ficcional, o programa mantém uma política explícita de segregação: dançantes negros são permitidos apenas durante o “Dia Negro” (Negro Day), uma transmissão mensal separada da programação regular, apresentada por Motormouth Maybelle.
Essa segregação midiática reflete práticas reais da época. Programas de televisão locais e nacionais frequentemente excluíam participantes negros ou os relegavam a espaços segregados. A representação de afro-americanos na mídia era escassa e, quando existia, reforçava estereótipos racistas. A luta pela integração dos meios de comunicação tornou-se uma frente crucial do movimento pelos direitos civis, reconhecendo que a visibilidade na cultura popular era inseparável da cidadania plena.
O filme retrata com precisão histórica como a resistência à integração não se limitava a indivíduos preconceituosos, mas era sustentada por estruturas institucionais. Velma Von Tussle, ex-Miss Baltimore Crabs e mãe de Amber, personifica a elite branca que via a segregação como proteção de seus privilégios.
A personagem de Motormouth Maybelle, interpretada por Queen Latifah no filme de 2007, representa a resistência organizada dentro da comunidade negra. Sua canção “I Know Where I’ve Been” acompanha visualmente uma marcha pelos direitos civis, explicitando a conexão entre a luta pela integração do programa de TV e o movimento mais amplo por justiça racial. A música funciona como o coração emocional do filme, lembrando ao espectador que por trás do conflito aparentemente leve sobre um concurso de dança estavam vidas reais sendo afetadas por políticas de exclusão sistemática.
A Liberdade de Expressão em Tempos de Censura
Embora Hairspray não aborde diretamente o macarthismo, o contexto de 1962 não permite separar completamente as formas de perseguição política. A Hollywood Blacklist, embora enfraquecida desde 1960, quando Dalton Trumbo recebeu crédito público pelo roteiro de Exodus, ainda exercia influência paralisante na indústria.
A cultura do medo instaurada pelo HUAC e por grupos privados como a Legião Americana havia demonstrado como rapidamente o entretenimento podia ser transformado em campo de batalha ideológica. A escolha de John Waters em escrever Hairspray originalmente sob o título White Lipstick, uma referência às convenções de beleza branca, já sinalizava sua intenção de subverter normas estabelecidas.
Ao colocar no centro de sua narrativa uma protagonista “agradavelmente rechonchuda” que desafia padrões estéticos e raciais simultaneamente, Waters criou uma alegoria sobre a diversidade e a resistência à normalização opressiva.
O filme de 2007 mantém essa herança subversiva, embora embalada em uma produção mais polida. A decisão de manter a tradição de um homem interpretando Edna Turnblad, papel que no original coube a Divine e na versão de 2007 a John Travolta, preserva a dimensão queer da obra, lembrando que as lutas por reconhecimento racial, de gênero e corporal frequentemente se encontram.

Por Que Produções Leves Devem Falar de Temas Graves
O verdadeiro alcance de Hairspray reside em sua demonstração de que entretenimento popular e compromisso social não são mutuamente excludentes. O formato musical, frequentemente descartado como frivolidade, provou-se veículo eficaz para introduzir discussões sobre racismo institucionalizado para audiências que poderiam evitar documentários ou dramas explicitamente políticos.
A abordagem de temas sensíveis através de narrativas acessíveis não significa simplificação irresponsável. Hairspray não diminui a gravidade da segregação racial; pelo contrário, ao contrastar a alegria musical com a crueldade institucional, amplifica o absurdo moral de um sistema que separava cidadãos com base na cor da pele.
A cena em que dançarinos negros são fisicamente removidos do estúdio, ou quando Penny Pingleton enfrenta a reação violenta de sua mãe por seu relacionamento interracial, mantêm o peso histórico dos eventos sem sacrificar a coerência narrativa.
Em 2022, o filme original de 1988 foi selecionado para preservação no Registro Nacional de Filmes da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, sendo reconhecido como “cultural, historicamente ou esteticamente significativo”. Essa honraria oficial confirma o que espectadores já sabiam: obras que combinam entretenimento de qualidade com consciência social possuem valor duradouro que transcende gerações.
Hairspray permanece relevante não apenas como exercício de nostalgia dos anos 1960, é também um lembrete de que as estruturas de exclusão, quando não são confrontadas ativamente, tendem a perpetuar-se. O filme nos convida a reconhecer que a luta por representação justa nos espaços públicos, sejam estes programas de televisão, instituições educacionais ou oportunidades profissionais, é inseparável da construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
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