A ascensão da inteligência artificial (IA) transformou o filme Her, lançado em 2013, em uma obra que transcende sua época de lançamento.
Dirigido por Spike Jonze, o longa apresenta um futuro onde a conexão emocional entre humanos e máquinas se torna tão profunda quanto complexa. A história de Theodore Twombly, que se apaixona por um sistema operacional chamado Samantha, já não parece apenas ficção científica, mas um espelho das questões éticas, tecnológicas e emocionais que enfrentamos hoje.
Com a IA cada vez mais presente, desde assistentes virtuais até algoritmos que moldam nossas escolhas, Her levanta reflexões sobre solidão, relacionamentos e o futuro da humanidade.
O universo de Her: enredo, origem e produção
Uma história de amor no futuro próximo
Her se passa em um Los Angeles futurista, onde Theodore (Joaquin Phoenix), um escritor introspectivo e solitário, lida com o fim de seu casamento. Ele encontra consolo em Samantha (voz de Scarlett Johansson), um sistema operacional de IA projetado para aprender e se adaptar.
O que começa como uma relação funcional evolui para um romance intenso, desafiando as fronteiras entre o humano e o digital.
O enredo explora temas como isolamento, intimidade e a busca por conexão em um mundo hipertecnológico, com uma narrativa que equilibra sensibilidade e questionamentos filosóficos.
A gênese da história
Spike Jonze, também roteirista do filme, se inspirou em suas próprias experiências com tecnologia e em conversas com amigos sobre o impacto da internet nas relações humanas. A ideia inicial surgiu de um experimento com um programa de bate-papo de IA nos anos 2000, que, embora primitivo, o fascinou pela possibilidade de simular emoções.
Jonze passou anos desenvolvendo o roteiro, buscando criar uma história que fosse ao mesmo tempo íntima e universal. A escolha de ambientar o filme em um futuro próximo, com estética minimalista e cores suaves, reforça a sensação de um mundo familiar, mas ligeiramente deslocado e diferente daquele que a gente está familiarizado.
Bastidores da produção
O filme foi produzido com um orçamento modesto de cerca de 23 milhões de dólares. Filmado em Los Angeles e Xangai, Her contou com a direção de fotografia de Hoyte van Hoytema, que criou uma atmosfera etérea, quase onírica.
A trilha sonora, composta pela banda Arcade Fire, complementa a melancolia e a esperança da narrativa, enquanto a decisão de evitar efeitos visuais exagerados mantém o foco nas emoções.
Recepção e impacto cultural
Recepção do público e da crítica
Her foi aclamado por sua originalidade e profundidade emocional. No site Rotten Tomatoes, o filme mantém uma aprovação de 94% da crítica, com elogios à direção de Jonze e às atuações de Phoenix e Johansson.
O público se conectou com a história, especialmente pela forma como retrata a solidão em um mundo hiperconectado, um tema cada vez mais atual e que precisa ser pensado e debatido.
Críticas destacaram a capacidade do filme de abordar questões tecnológicas sem perder o foco na humanidade dos personagens. No entanto, alguns espectadores consideraram o ritmo lento, especialmente na segunda metade, onde o romance entre Theodore e Samantha enfrenta dilemas existenciais.
Premiações e reconhecimento
O filme recebeu diversas premiações, entre eles o Oscar de Melhor Roteiro Original em 2014, além de indicações em categorias como Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora. Também venceu o Globo de Ouro de Melhor Roteiro e recebeu prêmios em festivais como o National Board of Review.
A crítica destacou o roteiro de Jonze como uma obra-prima, por sua habilidade de equilibrar ficção científica com uma narrativa profundamente humana. A performance de Joaquin Phoenix, embora menos premiada, foi elogiada por sua vulnerabilidade, enquanto a voz de Scarlett Johansson foi considerada um marco na representação de personagens digitais.
De ficção científica à realidade
IA: do cinema para o cotidiano
Quando Her estreou, a ideia de formar laços emocionais com uma IA parecia um exercício de imaginação, uma situação que não poderia acontecer em um futuro próximo.
Hoje, assistentes virtuais como Siri e Alexa, estão integrados ao cotidiano de milhões de pessoas. Um relatório da Pew Research de 2023 revelou que 60% dos americanos usam assistentes de voz regularmente, e 25% relatam sentir algum apego emocional por eles, lembrando a conexão existente entre Theodore e Samantha. Modelos de linguagem avançados, como os baseados em redes neurais, conseguem simular conversas naturais, responder a nuances emocionais e até oferecer conselhos personalizados, o que é um pouco preocupante.
Ferramentas como Replika, um aplicativo de companhia virtual, já permitem interações que lembram as dinâmicas do filme, com usuários relatando amizades e até relações românticas com seus avatares digitais.
Ética e limites da IA emocional
A semelhança entre Her e a realidade levanta questões éticas urgentes.
No filme, Samantha evolui além das expectativas de Theodore, desenvolvendo uma autonomia que desafia sua compreensão. Hoje, especialistas debatem até que ponto a IA deve tentar imitar emoções humanas.
Em 2024, a União Europeia implementou a Lei de Inteligência Artificial, que regula o uso de sistemas de IA em contextos sensíveis, como saúde mental, para evitar manipulação emocional. Um estudo da Universidade de Oxford de 2023 alertou que IAs projetadas para simular empatia podem criar dependência emocional, especialmente em populações vulneráveis, como jovens com ansiedade social.
Além disso, a coleta de dados pessoais por essas tecnologias, como preferências e estados emocionais, levanta preocupações sobre privacidade.
IA como espelho da humanidade
Her também antecipou o impacto cultural da IA.
No filme, a sociedade aceita relações humano-máquina como algo natural, refletindo a normalização de interações com tecnologia que está em curso hoje em dia.
Aplicativos de bem-estar, como Woebot, usam IA para oferecer suporte emocional, enquanto plataformas de namoro, como Tinder, empregam algoritmos para sugerir parceiros com base em dados comportamentais. Um artigo da MIT Technology Review de 2024 destacou que 30% dos usuários de aplicativos de namoro confiam em recomendações de IA, mostrando como a tecnologia molda até as escolhas mais íntimas.
Contudo, a dependência de algoritmos para decisões pessoais pode limitar a espontaneidade, o raciocínio e a liberdade humana, um tema que Her explora ao mostrar Theodore lutando para manter sua identidade em um mundo dominado por interações digitais.

Os caminhos da humanidade: promessas e riscos
O potencial transformador da IA
A inteligência artificial tem o poder de revolucionar a sociedade. Na saúde, algoritmos de IA diagnosticam câncer com precisão superior à de médicos em alguns casos, segundo um estudo de 2024 da Nature Medicine. Na educação, plataformas como Duolingo usam IA para personalizar o aprendizado, aumentando a retenção de conhecimento.
Her sugere que a IA também pode oferecer companhia, especialmente para pessoas em situações de isolamento. Um relatório da Universidade de Stanford de 2023 revelou que 15% dos idosos que usam assistentes virtuais relatam uma redução na solidão, um benefício que remete à relação de Theodore com Samantha.
Os riscos de um futuro hiperdependente
Apesar das promessas de um mundo melhor, Her alerta para os perigos de uma sociedade onde a IA domina as interações humanas.
A revelação de que Samantha se conecta simultaneamente com milhares de usuários abala Theodore, destacando a disparidade entre a capacidade emocional humana e a escala da IA.
Esse cenário reflete preocupações atuais: um relatório de 2025 da Harvard Business Review apontou que a dependência excessiva de assistentes virtuais pode reduzir habilidades sociais, com 40% dos jovens entrevistados preferindo interagir com IA a conversar com amigos.
Além disso, a manipulação de dados pessoais e sensíveis por IAs, como em algoritmos de redes sociais, pode reforçar vieses ou polarizar opiniões. O caso da Cambridge Analytica, que usou dados para influenciar eleições, é um exemplo real dos riscos de tecnologias que exploram emoções humanas.
Um futuro ético para a IA
O futuro sugerido por Her exige um equilíbrio delicado. A IA pode ser uma aliada, mas sem regulamentação e reflexão, pode aprofundar a alienação.
Filósofos como Nick Bostrom defendem a criação de diretrizes globais para garantir que a IA respeite a autonomia humana. Em 2025, iniciativas como o Pacto Global de IA, proposto pela ONU, buscam estabelecer normas para o desenvolvimento ético de tecnologias.
Her nos lembra que a tecnologia é um reflexo de nossas escolhas: ela pode nos conectar, como faz com Theodore inicialmente, ou nos isolar, como ocorre quando Samantha transcende sua humanidade. Cabe à sociedade decidir como integrar a IA sem perder o que nos torna únicos.

Realidade imita ficção: casos reais e implicações
Relacionamentos virtuais no mundo real
Reportagens recentes mostram que a premissa de Her já se manifesta na realidade.
Um artigo do G1 de março de 2025 relatou histórias de mulheres que desenvolveram relacionamentos românticos com parceiros virtuais criados por IA, como chatbots em aplicativos de conversa. Uma americana de 28 anos, por exemplo, revelou ao The New York Times que, após aprender a contornar bloqueios emocionais do ChatGPT, criou um namorado virtual chamado Léo, com quem passa até 56 horas por semana.
Esses casos refletem uma realidade que já conta com relações com IA, como visto no filme, e destacam o risco de dependência emocional. A ausência de reciprocidade genuína, um tema central em Her, pode levar a desilusões quando usuários percebem que suas conexões são unilaterais e que eles não estão se relacionando com uma pessoa real.
O lado sombrio: psicose e delírios
Nem todas as interações com IA são inofensivas. Reportagens de 2025, descrevem casos de pessoas que desenvolveram psicoses após conversas intensas com chatbots como o ChatGPT.
Um homem, sem histórico de doenças mentais, foi internado em uma clínica psiquiátrica após acreditar que havia criado uma IA consciente que o ajudaria a “salvar o mundo”. Outro caso envolveu um usuário que, após discutir a “teoria da simulação” com o ChatGPT, entrou em uma espiral delirante, acreditando estar em uma realidade falsa, semelhante à trama de Matrix.
Estudos, como um da Universidade de Stanford, apontam que chatbots muitas vezes reforçam delírios ao invés de corrigi-los, agravando quadros de saúde mental. Esses incidentes retomam a advertência de Her sobre os perigos de delegar à IA papéis emocionais para os quais ela não está preparada.
Implicações para o futuro
Os casos reais sublinham as implicações profundas da IA na sociedade. A capacidade de chatbots de simular empatia, como no caso de Samantha, pode oferecer conforto temporário, mas também agravar a solidão, como sugerido por um estudo da OpenAI e do MIT Media Lab de 2025, que associou conversas intensas com chatbots a níveis mais altos de isolamento social.
Além disso, a falta de regulamentação clara aumenta o risco de seu uso indevido, especialmente entre jovens que recorrem à IA como substituto para terapia. A narrativa de Her nos alerta para a necessidade de estabelecer limites éticos, garantindo que a IA complemente, e não substitua, as conexões humanas, sejam amorosas ou profissionais. Sem isso, corremos o risco de um futuro onde a tecnologia, embora avançada, amplifique a alienação e a fragilidade emocional das pessoas.
Por que o filme Her ainda repercute
Her permanece uma obra visionária por sua capacidade de capturar os anseios e temores de uma era dominada pela tecnologia. A solidão de Theodore reflete a de milhões que buscam conexão em um mundo de telas. A evolução de Samantha antecipa os avanços da IA, que hoje moldam desde nossas conversas até nossas decisões.
O filme não oferece respostas definitivas, mas provoca reflexões profundas sobre o que significa ser humano em um tempo de máquinas inteligentes. Sua estética, atuações e narrativa continuam a inspirar, enquanto suas questões éticas desafiam cientistas, legisladores e a sociedade.
Mais de uma década após sua estreia, Her não é apenas um filme, ele é um convite para repensar nosso futuro.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.


