A 1ª Bienal do Livro do Paraná representava uma promessa ambiciosa para o calendário cultural do sul do Brasil, mas enfrentou uma série de obstáculos que culminaram em seu adiamento para 2026.
A Expectativa Inicial: O Maior Evento Literário do Sul do Brasil
Apresentada como o maior evento literário do sul do Brasil, a 1ª Bienal do Livro do Paraná surgiu como um marco para Curitiba e região, prometendo unir editoras, autores e leitores em uma celebração de 10 dias repleta de debates, lançamentos e livros.
Anunciada em 2024, a iniciativa visava preencher uma lacuna no calendário nacional, inspirada em bienais consolidadas como a de São Paulo e Rio de Janeiro, mas com foco em vozes regionais do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O projeto original contava com 37 editoras confirmadas, incluindo Paulus, Vozes e Ciranda Cultural, e uma programação que abrangia painéis sobre diversidade literária, direitos autorais e o impacto da tecnologia na leitura.
A expectativa era de um espaço amplo de 11 mil metros quadrados, com infraestrutura moderna para stands personalizados, áreas de autógrafos e até espaços interativos para crianças. Alguns supostos patrocinadores iniciais, como o governo estadual e empresas locais, foram citados em divulgações iniciais, posicionando o evento como um hub para o mercado editorial sulista. Para autores independentes, representava uma oportunidade rara de visibilidade sem os altos custos de feiras metropolitanas.
No entanto, desde o anúncio, sinais de instabilidade começaram a emergir, culminando em um primeiro adiamento que já indicava fragilidades na gestão.
O Primeiro Adiamento: De Setembro para Outubro
Inicialmente programada para o final de setembro de 2025, a Bienal foi reagendada para o período de 10 a 19 de outubro, uma mudança atribuída a ajustes logísticos e captação de recursos.
Esse primeiro adiamento, ocorrido em março, coincidiu com o arquivamento temporário do projeto na Lei Rouanet. A legislação federal, que incentiva eventos culturais via incentivos fiscais, era crucial para viabilizar 70% do orçamento estimado em R$ 5 milhões. Sem ela, a organização precisou renegociar prazos, mas o otimismo persistia: em notas oficiais, a equipe reafirmava que o evento seguiria adiante, com foco em uma programação inclusiva que celebrasse a literatura paranaense, de Dalton Trevisan a autores contemporâneos como Mariana Weickert.
Esse reagendamento, embora discreto, gerou as primeiras reclamações entre expositores. Editoras que haviam investido em protótipos de stands e materiais promocionais relataram custos extras com armazenamento e reformulações de agendas.
Ainda assim, a Bienal manteve o apelo como plataforma para debates sobre temas atuais, como a influência das redes sociais na escrita e o papel da literatura na preservação de identidades regionais.
Problemas com a Produtora: O Coração da Crise Administrativa
A raiz dos problemas reside na gestão da produtora responsável, que acumulou dívidas e enfrentou bloqueios judiciais, comprometendo a execução do evento.
Em março de 2025, o projeto foi arquivado no Ministério da Cultura forçando uma reformulação que atrasou depósitos via Lei Rouanet, parte dos valores só entraria em dezembro, inviabilizado para atender prazos imediatos. Áudios vazados em grupos de WhatsApp, acessados por veículos como o Plural, revelam tentativas desesperadas de contratar advogados para parcelar dívidas com fornecedores, incluindo aluguéis e estruturas temporárias.
Processos Judiciais e Bloqueio de Contas: A Inabilitação da Lei Rouanet
Os processos judiciais contra a produtora incluíam ações por inadimplência, com contas bancárias bloqueadas que impediram transferências essenciais. Isso resultou na inabilitação do uso da Lei Rouanet, mecanismo que permite a empresas deduzirem do imposto de renda valores investidos em cultura. Sem essa ferramenta, a captação de patrocínios privados evaporou: grandes marcas, como bancos e telecoms que apoiam eventos semelhantes, recuaram ante os riscos legais. A realizadora Lis Alves, em entrevistas à Folha de S.Paulo, admitiu que o atraso na aprovação do projeto criou um efeito cascata, com fornecedores exigindo pagamentos adiantados que a organização não pôde honrar.
Especialistas em direito cultural apontam que tais bloqueios são comuns em eventos emergentes, mas a falta de um plano B agravou a situação. O Tribunal de Justiça do Paraná registrou ao menos três ações relacionadas à produtora nos últimos seis meses, envolvendo valores na casa dos R$ 500 mil, principalmente por contratos não cumpridos de edições anteriores de feiras menores.

Cancelamentos de Convidados: Da Promessa à Desilusão
A programação da Bienal foi um dos atrativos principais, com nomes de peso divulgados em redes sociais e releases. No entanto, a confirmação de presenças era frágil, levando a cancelamentos em cascata que minaram a credibilidade do evento.
Nomes Renomados que Desistiram: Bial, Sérgio Rodrigues, Thalita Rebouças e Jarid Arraes
Pedro Bial, apresentador e escritor, foi um dos primeiros a cancelar, citando conflitos de agenda e falta de detalhes contratuais. Thalita Rebouças, referência em literatura infanto-juvenil, seguiu o mesmo caminho. Sérgio Rodrigues, e Jarid Arraes também se retiraram, alegando que convites iniciais careciam de formalização.
Esses cancelamentos deixaram lacunas na grade de palestras, forçando substituições de última hora com autores locais menos conhecidos.
A ausência desses nomes reduziu o apelo comercial do evento, os ingressos pré-vendidos caíram 40% após as notícias, e evidenciou várias falhas na comunicação. As assessorias de vários desses escritores relataram que os convites para participação foram enviados por e-mail genérico, sem follow-up, o que é incomum em eventos desse porte.
Falta de Patrocínio: O Colapso Financeiro e Logístico
A escassez de apoiadores foi o golpe final, com menos de 30% do orçamento captado até setembro. Essa falta de influxo financeiro agravou problemas operacionais, como o montante de tendas e o transporte de livros de São Paulo.
Mudança de Local e Redução de Espaço: De 11 Mil para 3,5 Mil Metros Quadrados
A troca de sede, anunciada em 19 de setembro, de 2025, do Viasoft Experience para o Jockey Club do Paraná, ocorreu por rescisão de contrato: o Viasoft exigiu pagamento integral adiantado, incompatível com o fluxo de caixa.
O novo espaço, de apenas 3,5 mil metros quadrados, representou uma redução drástica, eliminando áreas prometidas para workshops e exposições interativas. Stands personalizados, projetados para o layout original, tornaram-se inviáveis, forçando editoras a adaptarem designs em escala reduzida.
Essa mudança, comunicada com menos de um mês para o evento, gerou pânico entre expositores: custos com frete de materiais de volta somaram milhares de reais, sem reembolso imediato.
Impactos nos Participantes: Prejuízos e Reações da Comunidade Literária
Editoras e autores independentes absorveram os maiores prejuízos, com investimentos em protótipos de stands, viagens e marketing que evaporaram.
Uma distribuidora de Curitiba estimou perdas de R$ 20 mil só em impressão de banners, enquanto autores autônomos, que contavam com vendas no local para equilibrar contas, viram agendas anuais desmoronarem. Reclamações no Reclame Aqui multiplicaram-se, com relatos de deslocamentos planejados de até 660 km cancelados sem aviso prévio.
Saída dos Curadores: O Vazio na Visão Artística
A renúncia dos curadores, anunciada informalmente em grupos fechados, marcou o ponto de não retorno. Responsáveis pela programação temática, eles citaram divergências com a produção sobre cortes orçamentários que afetavam painéis de diversidade e direitos indígenas. Sem sua expertise, o evento perdeu coesão, agravando a percepção de amadorismo.
Lições de uma Edição Frustrada: Transparência e o Futuro da Bienal
O segundo adiamento, confirmado em 5 de outubro de 2025, apenas cinco dias antes da data marcada, para 2026 (possivelmente abril), expõe problemas sistêmicos na gestão de eventos culturais emergentes no Brasil.
A organização atribuiu o cancelamento a “motivos operacionais, logísticos e condições climáticas”, mas fontes internas apontam para uma combinação de dívidas acumuladas e ausência de transparência. Comunicados vagos nas redes sociais, sem detalhes sobre reembolsos ou novas datas, alimentaram críticas de falta de accountability.
Enquanto a Bienal se reinventa, o episódio serve como alerta: eventos culturais demandam não só paixão, mas planejamento sólido. Em 2026, espera-se uma edição que honre o potencial do sul brasileiro, transformando lições amargas em bases firmes para o diálogo literário.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.


