A remada viking é, antes de tudo, um gesto nascido no metal.
Formada em 1992 em Tumba, Suécia, a banda Amon Amarth construiu ao longo de mais de três décadas um dos fenômenos mais singulares da música pesada mundial: milhares de fãs sentados no chão de arenas, movendo os braços em sincronia perfeita como se remassem um drakkar, gritando “ro” em uníssono. O que começou como uma brincadeira nos shows de uma banda de death metal melódico se transformou em um ritual tão poderoso que, em 2026, a torcida norueguesa o replicou em escala massiva durante a Copa do Mundo, levando a celebração para praticamente todos os cantos do planeta.
O Som do Amon Amarth e a Construção de uma Identidade
O Amon Amarth não se contentou em ser mais uma banda de metal com temática viking. Desde o início, o grupo liderado pelo vocalista Johan Hegg desenvolveu um som que mistura a agressividade do death metal com melodias que evocam a paisagem nórdica, criando uma atmosfera imersiva onde a mitologia não é apenas tema, mas experiência. O nome da banda vem do sindarin, língua élfica criada por J.R.R. Tolkien, e significa Monte Doom, o vulcão de O Senhor dos Anéis.
A discografia do grupo reflete uma trajetória de crescimento constante. O álbum Twilight of the Thunder God (2008) marcou a consolidação internacional, estreando na 10ª posição da parada sueca e alcançando a 50ª da Billboard 200 americana.
Títulos como Jomsviking (2016), Berserker (2019) e The Great Heathen Army (2022) aprofundaram a relação entre música e narrativa histórica, transformando cada show em uma espécie de encenação coletiva onde o público não é participante ativo de uma saga.
Hegg explica a escolha pelo tema viking com simplicidade: “Quando escrevemos a primeira música com letras vikings, sentimos que era um tema que combinava muito bem com a música que queríamos fazer. Era algo diferente.”
Essa diferença se traduziu em uma conexão visceral com o público, que encontrou na remada viking uma forma física de expressar pertencimento a essa comunidade.
A Remada Viking nos Shows: Do Mosh Pit ao Ritual Coletivo
A remada viking, conhecida entre os fãs como “rowing pit” ou “remada do barco”, ocorre uma ou duas vezes por show, geralmente durante a música “Put Your Back Into the Oar”, lançada em 2022.
O ritual é descrito pelo próprio Hegg com misto de orgulho e espanto: “Imagine que o mosh pit para, e todo mundo se senta e finge que está remando. É louco. É hilário.”
O produtor da banda, Justin Arcangel, detalha a dinâmica: “Os fãs querem fingir que a banda no palco é um bando de vikings saqueadores que desceram de Valhalla, e suspendem a descrença por duas horas. Todo mundo bebe cerveja, se diverte, e é como uma festa de metal.”
Essa suspensão da descrença é o que diferencia o Amon Amarth de outras bandas do gênero. O público vive a mitologia.
Mas a remada viking não ficou restrita aos shows do Amon Amarth. Em fevereiro de 2024, fãs da banda Deafheaven foram criticados por abrir uma “rowing pit” em um show de shoegaze, uma prova de que o ritual já transcendeu suas fronteiras originais e se tornou patrimônio da cena metal.
Quando a Música Encontra a Torcida
A passagem da remada viking dos shows de metal para os estádios de futebol não diminui sua origem musical. Pelo contrário: revela como gestos nascidos em subculturas podem se tornar linguagem universal.
A Noruega, que voltou a uma Copa do Mundo após 28 anos, abraçou a celebração com uma paixão que ecoou a mesma energia dos shows de metal. Cerca de 100 mil pessoas se reuniram na Praça da Prefeitura de Oslo para remar em uníssono, enquanto Erling Haaland batia o tradicional tambor de torcida em telões gigantes.
A FIFA reconheceu o fenômeno em publicação oficial, destacando que a celebração se espalhou de estádios para metrôs de Nova York, escadas rolantes e até a Times Square.
Mas o que a maioria dos espectadores não percebeu é que aquele gesto, aquela sensação de comunidade movida por um ritmo único, já existia há duas décadas nos shows do Amon Amarth.
O Significado Além do Gesto
Hegg, em entrevista, explicou a inspiração por trás de “Put Your Back Into the Oar“: “Basicamente, é escrever uma música para os fãs, porque eles adoram entrar nas remadas nos shows. Mil pessoas se sentam e começam a remar.”
Mas o vocalista vai além da mera diversão: “Todo mundo no planeta está no mesmo barco agora; temos o mesmo problema. Então temos que começar a remar, e todo mundo tem que colocar as costas no remo.”
Essa leitura transforma a remada viking em metáfora contemporânea. Seja em uma arena de shows de metal ou em uma praça lotada em Oslo, o gesto carrega a mesma mensagem: a força do coletivo, a necessidade de remar na mesma direção, a crença de que obstáculos são superados quando há unidade.
A remada viking é, ao mesmo tempo, herança histórica, expressão musical e símbolo de comunidade. É a prova de que a cultura do metal produz gestos que, com o tempo, se tornam patrimônio universal. O que o Amon Amarth construiu em mais de vinte anos de estrada, uma conexão tão forte com seu público que este inventou formas físicas de participar da performance, hoje é reconhecido em qualquer lugar do mundo. A banda escreveu canções sobre vikings e criou um ritual que, literalmente, move multidões.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.


