Os livros impressos e os discos de vinil carregam uma carga simbólica que transcende a mera funcionalidade.
Em uma época em que a tecnologia promete acesso instantâneo a qualquer obra literária ou discográfica, milhões de pessoas continuam a escolher formatos que exigem espaço físico, manuseio cuidadoso e um investimento de tempo que o digital parece eliminar.
A pergunta que se impõe não é se esses objetos ainda têm lugar no mundo contemporâneo, os números respondem isso com clareza, mas porque a experiência tangível continua a atrair consumidores que, paradoxalmente, são os mesmos que usam streaming e leitores digitais diariamente.

A Falsa Narrativa da Extinção
Há uma história conveniente e persistente sobre o fim dos formatos físicos. Ela se repete em rodas de conversa, em manchetes apressadas e em prognósticos que envelhecem mal. A ideia de que livros impressos e discos de vinil estão em vias de desaparecimento é, no entanto, uma falsa narrativa que resiste aos fatos.
A realidade é outra. Em 2025, as vendas de livros físicos no Brasil cresceram 6,5% em volume, totalizando aproximadamente 185 milhões de exemplares comercializados e um faturamento que ultrapassou os 4,5 bilhões de reais. Descontada a inflação do período (IPCA de 4,26%), o avanço real do setor foi de 3,3%, conforme a Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), com apuração da Nielsen BookData.
O que chama atenção não é apenas o crescimento, mas sua natureza. Segundo Mariana Bueno, coordenadora de pesquisas da Nielsen BookData, nos anos anteriores o avanço vinha mais do aumento de preços. Em 2025, foi o número de exemplares vendidos que puxou o resultado, a variação de preço ficou abaixo da inflação, o que significa que mais pessoas estão comprando livros, não apenas pagando mais por eles.
No campo da música, a história se repete com contornos próprios. O mercado fonográfico brasileiro faturou 3,958 bilhões de reais em 2025, alta de 14,1% sobre o ano anterior, consolidando o país na oitava posição entre os maiores mercados do mundo, segundo a Pro-Música Brasil.
Embora as vendas físicas representem menos de 1% do total das receitas, cresceram 25,6% no período, impulsionadas pelo vinil.
Globalmente, o vinil registrou seu 19º ano consecutivo de crescimento em 2025, com alta de 13,7%. Nos Estados Unidos, o formato gerou 1 bilhão de dólares em receitas, a primeira vez desde 1983, representando quase 10% do total da música gravada naquele país, segundo dados da RIAA divulgados pela IFPI.
Esses números não retratam um nicho de pessoas movidas por uma nostalgia. Retratam um mercado em expansão, alimentado por consumidores que fazem escolhas conscientes.
O Ritmo do Consumo e a Experiência que Não Cabe na Tela
A valorização do físico não é um capricho estético. Ela está enraizada em diferenças estruturais entre possuir um objeto e acessar um arquivo.
A Livraria como Espaço de Encontro
As livrarias físicas se fortaleceram em 2025. O canal de livrarias ampliou sua relevância no mercado editorial brasileiro, com crescimento de 6,1 pontos percentuais em volume de exemplares e aumento de 4,3 pontos percentuais na participação no faturamento das editoras.
Isso não é um resquício do passado, é uma resposta a uma demanda contemporânea.
A pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil, também da Nielsen BookData, revela que 48,8% dos consumidores fizeram sua última compra presencial em uma livraria física, percentual que vem crescendo consistentemente (era 46,6% em 2023 e 46,8% em 2024).
Para 53% dos consumidores, a livraria é um espaço para relaxar e explorar sem pressa; para 46%, um lugar para se conectar com cultura e conhecimento.
A preferência pelo presencial tem relação direta com a faixa etária, quanto mais jovem, maior a tendência ao digital; quanto mais velho, maior a afinidade com o espaço físico. Mas há um dado que une os perfis: a maioria dos consumidores afirmou que compraria em lojas físicas caso o preço fosse equivalente ao da loja online.
Isso sugere que a barreira não é a falta de interesse, mas uma questão de custo.
O Vinil como Objeto de Valor Cultural
No mercado fonográfico, o vinil cumpre uma função diferente da do livro, mas igualmente insubstituível. Enquanto o streaming domina com 88,1% das receitas na América Latina, o vinil se consolida como formato de valor cultural, promocional e complementar.
O encarte com as letras, as fotos dos artistas, os créditos de produção, o ato de posicionar a agulha, o chiado que antecede a música, tudo isso compõe uma experiência que não pode ser replicada por um algoritmo de reprodução. O vinil vai além de ser um meio de ouvir música; é um artefato que estabelece uma relação diferente entre o ouvinte e a obra.

O que o Digital Não Oferece
A facilidade do acesso digital é inegável. Um smartphone carrega milhares de livros e álbuns. Mas a praticidade esconde limitações que se tornam evidentes quando se olha com atenção.
O Abismo do Catálogo Inacessível
Muitos livros simplesmente não existem em formato digital. Edições antigas, raras, de autores independentes ou de nichos específicos permanecem disponíveis apenas na versão impressa.
O mesmo ocorre com a música: álbuns fora de catálogo, lançamentos de nicho, gravações de artistas que nunca migraram para o digital ou obras retiradas de plataformas por questões de licenciamento desaparecem do streaming, mas continuam a circular no mercado físico.
A Licença versus a Posse
No digital, o consumidor adquire uma licença de acesso, não o produto. Serviços podem remover conteúdo, encerrar contratos, alterar termos de uso ou simplesmente descontinuar a operação.
Um livro na estante ou um disco na coleção permanecem inalterados, independente das decisões corporativas de terceiros. Essa distinção entre posse e acesso é fundamental para entender a lógica do consumidor contemporâneo: ele não está rejeitando o digital, mas está diversificando suas formas de relação com a cultura.
A Economia do Usado
O mercado de livros e discos usados movimenta uma economia que não tem equivalente digital. O mercado global de livros usados online foi avaliado em 4,2 bilhões de dólares em 2025, com projeção de chegar a 8,1 bilhões até 2034.
No Brasil, sebos e eventos de troca mantêm uma rede de circulação que cria comunidade, gera renda e preserva obras que, de outra forma, seriam descartadas. Essa circularidade é inerente ao físico e impossível de replicar no ambiente digital, onde a transferência de arquivos é, na melhor das hipóteses, uma cópia sem valor de mercado secundário.

O Futuro da Coexistência
O digital não vai substituir totalmente o físico. Essa afirmação não é uma aposta sentimental, mas uma constatação apoiada por dados.
No Brasil, 56% dos consumidores de livros compraram apenas livros físicos nos últimos 12 meses; 30% consumiram tanto impressos quanto digitais; e apenas 14% compraram exclusivamente livros digitais.
O perfil não é de um consumidor que escolhe um lado, mas de um consumidor que usa diferentes formatos para diferentes necessidades.
A ficção, por exemplo, liderou as vendas digitais à la carte em 2025 pela primeira vez, enquanto o físico manteve sua força em obras gerais, didáticos e religiosos.
Isso indica uma segmentação natural: o digital serve para descoberta e conveniência; o físico, para aprofundamento e coleção.
O mesmo se observa na música. O streaming cresceu 13,2% no Brasil em 2025, gerando 3,4 bilhões de reais. Simultaneamente, o vinil cresce 25,6%. Não há contradição: são comportamentos complementares. O streaming democratiza o acesso; o vinil ritualiza a escuta.
Mesmo formatos considerados obsoletos, como as fitas cassete e os CDs, encontram público entre colecionadores e entusiastas do lo-fi. O CD, em particular, ainda responde por uma fatia significativa das vendas físicas de música em mercados como o japonês, onde o físico cresceu mais que o digital em 2025.
O Significado Social do Objeto
A persistência de livros impressos e discos de vinil não pode ser reduzida a uma questão de preferência de formato. Ela reflete uma mudança mais ampla na relação entre as pessoas e os bens culturais.
Em um mundo de consumo instantâneo e descartável, o objeto físico impõe uma lentidão que é, por si só, um ato de resistência. Folhear páginas, ler um encarte, organizar uma estante ou uma coleção são práticas que exigem tempo e atenção, recursos escassos na economia da atenção digital.
Além disso, o objeto físico funciona como marcador social. Uma estante de livros comunica algo sobre quem a possui. Uma coleção de vinis é, ao mesmo tempo, arquivo pessoal e declaração de identidade. O digital, por sua natureza invisível, não oferece essa dimensão de expressão pública.
A pesquisa da Nielsen BookData mostra que 56% dos consumidores de livros no Brasil compram por redes sociais, e que as mulheres entre 25 e 54 anos representam 76% das consumidoras nesse canal.
Isso revela uma curiosa simbiose: o digital como vetor de descoberta e o físico como objeto de desejo. O livro impresso e o disco de vinil são, cada vez mais, conteúdo para ser compartilhado, fotografado, discutido e, nesse processo, reafirmam sua relevância cultural.

O livro impresso e o disco de vinil
Os números de 2025 não contam uma história de nostalgia. Contam a história de milhões de pessoas que, tendo à disposição todas as facilidades do digital, escolhem deliberadamente manter uma relação tangível com a cultura. Livros impressos e discos de vinil não são relíquias de um passado que resiste a morrer; são componentes ativos de um presente em que a diversidade de formatos enriquece a experiência do consumidor.
O digital é prático, democrático e indispensável. Mas o físico oferece algo que nenhuma tela pode reproduzir: a certeza de que aquela obra é sua, de que ela permanece, de que ela ocupa um lugar no mundo e na vida de quem a escolheu. E essa certeza, por mais simples que pareça, continua a valer bilhões.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.


