Brasil tri campeão é uma expressão que carrega consigo um significado que vai além da memória de um feito esportivo inédito, traz também o peso de uma era complexa e contraditória da história nacional.
A conquista do terceiro título mundial de futebol pelo Brasil, em 1970, no México, permanece como um dos momentos mais celebrados do esporte brasileiro. Porém, a distância de mais de meio século permite, e exige, um olhar mais profundo sobre o que realmente aconteceu nos gramados e, sobretudo, fora deles.
É exatamente esse olhar que a minissérie dramatizada Brasil 70: A Saga do Tri, disponível na Netflix, oferece ao público contemporâneo.
Brasil Tri Campeão: A Conquista que Mudou a História do Futebol
A Copa do Mundo de 1970 foi disputada no México e reuniu, pela primeira vez na história da competição, cinco campeões mundiais: Brasil, Uruguai, Itália, Inglaterra e Alemanha Ocidental. Quatro deles avançaram às semifinais, e três, Brasil, Itália e Uruguai, brigavam pela possibilidade histórica de conquistar em definitivo a Taça Jules Rimet, reservada ao primeiro país a vencer três edições do torneio.
A campanha brasileira foi um crescendo técnico e emocional. Na estreia, vitória por 4 a 1 sobre a Tchecoslováquia. Contra a Inglaterra, campeã mundial e favorita, o Brasil venceu por 1 a 0, em um jogo lembrado pela defesa histórica do goleiro Gordon Banks em cabeceio de Pelé, um lance que o próprio Rei descreveu com um simples “Meu Deus”. Nas quartas de final, o Peru de Didi, antigo ídolo brasileiro e agora técnico adversário, foi superado por 4 a 2. A semifinal contra o Uruguai, carrasco de 1950 no Maracanazo, trouxe de volta fantasmas do passado, mas o Brasil virou o placar com gols de Clodoaldo, Jairzinho e Rivellino.
A final, em 21 de junho de 1970, diante de 107 mil pessoas no Estádio Azteca, consolidou a seleção como a maior de todos os tempos. Pelé abriu o placar com uma cabeçada monumental. Gérson ampliou com um chute de fora da área de esquerda, com devastadora precisão. Jairzinho marcou em todas as partidas do torneio, um feito que permanece único até hoje. E Carlos Alberto Torres fechou com o gol que muitos consideram o mais bonito da história das Copas.
A campanha do Brasil no México foi impecável. Veja, na linha do tempo abaixo, como foi cada etapa da jornada até o título:
| Fase | Data | Adversário | Placar |
|---|---|---|---|
| 1ª Rodada — Grupo 3 | 03/06/1970 | Tchecoslováquia | 4 x 1 |
| 2ª Rodada — Grupo 3 | 07/06/1970 | Inglaterra | 1 x 0 |
| 3ª Rodada — Grupo 3 | 10/06/1970 | Romênia | 3 x 2 |
| Quartas de Final | 14/06/1970 | Peru | 4 x 2 |
| Semifinal | 17/06/1970 | Uruguai | 3 x 1 |
| Final | 21/06/1970 | Itália | 4 x 1 |
Brasil 70: A Saga do Tri — A minissérie
Brasil 70: A Saga do Tri é uma produção da Netflix em parceria com a O2 Filmes, com direção de Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles. A criação de Naná Xavier e Rafael Dornellas explora os bastidores e os momentos mais emblemáticos da campanha vitoriosa, mesclando elementos esportivos, políticos e sociais da época.
O elenco principal traz Rodrigo Santoro como João Saldanha, Bruno Mazzeo como Zagallo e Lucas Agrícola como Pelé. A série também conta com Marcelo Adnet como o narrador Eusébio Teixeira, Ravel Andrade como Tostão, Daniel Blanco como Rivellino, Gui Ferraz como Jairzinho, Caio Cabral como Carlos Alberto Torres, Fillipe Soutto como Gérson e Hugo Haddad como Félix.
A narrativa não se limita aos jogos, mergulha nos conflitos internos, nas trocas de comando, na controversa saída de João Saldanha, na chegada de Zagallo e nos dilemas pessoais e políticos que marcaram o caminho até a glória. Os jogadores são retratados como ídolos do esporte e como homens inseridos em um dos períodos mais complexos da história do Brasil.

O Brasil de 1970: Glória em Campo, Terror nas Ruas
Para entender o que a minissérie retrata, é preciso compreender o Brasil de 1970. O país vivia sob o regime militar instaurado desde 1964, e em dezembro de 1968 o Ato Institucional nº 5 (AI-5) havia consolidado o que ficou conhecido como os “anos de chumbo”. O AI-5 suspendeu direitos civis, fechou o Congresso Nacional, cassou mandatos políticos, proibiu o habeas corpus para acusados de crimes políticos e institucionalizou a censura prévia à imprensa, às artes e aos espetáculos.
Entre 1968 e 1978, mais de 500 filmes, 400 peças de teatro, 200 livros e incontáveis músicas foram censurados pelo regime. A Operação Bandeirantes (OBAN), criada em 1970 em São Paulo, tinha como objetivo combater organizações de oposição ao regime. Naquele mesmo ano, o Brasil ganhou a Copa do Mundo enquanto a repressão se intensificava com tortura sistemática, prisões arbitrárias e desaparecimentos forçados.
A minissérie coloca em cena essa dualidade brutal. Enquanto o país era exibido ao mundo como nação do futebol e do samba, por dentro as prisões políticas se multiplicavam e a censura sufocava qualquer voz dissidente. A produção mostra como o regime militar utilizou o sucesso esportivo como ferramenta de propaganda, de ufanismo e de distração com a famosa estratégia de “ame-o ou deixe-o”, que transformou a seleção brasileira em instrumento de legitimação do autoritarismo.
Como a Ditadura Usou o Futebol
A série ilustra com precisão como o governo militar manipulou a imagem da seleção. A conquista do tricampeonato foi explorada como prova de que o Brasil estava no caminho certo, que a ditadura era capaz de gerar resultados positivos. A euforia coletiva serviu para silenciar críticas e para desviar a atenção das violações sistemáticas de direitos humanos.
A minissérie não deixa passar despercebido esse mecanismo de cooptação, mostrando que a glória de 1970 carregava em si o preço de um silêncio imposto.

Curiosidades que a Minissérie Revela
A série resgata detalhes que muitos espectadores desconhecem sobre aquele período. Uma delas é a figura de João Saldanha, interpretado por Rodrigo Santoro. Saldanha era jornalista, militante comunista e técnico da seleção simultaneamente. Apelidado por Nelson Rodrigues de “João Sem-Medo”, ele foi responsável por montar a base do time que conquistou o tricampeonato, classificando o Brasil com 100% de aproveitamento nas eliminatórias.
Contudo, Saldanha foi demitido meses antes da Copa em circunstâncias que misturavam pressão política da ditadura com conflitos internos. A tese mais aceita é de que ele teria sido retirado do comando por recusar-se a convocar jogadores indicados pessoalmente pelo presidente Emílio Garrastazu Médici, em particular o atacante Dadá Maravilha. Sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro, então clandestino, tornava sua permanência inaceitável para um regime que temia ver um comunista voltar do México com a Taça Jules Rimet nas mãos.
A História de Tostão e Outros Detalhes
Outra curiosidade retratada é a de Tostão, interpretado por Ravel Andrade. O centroavante jogou a Copa de 1970 com um problema sério de visão, após uma cirurgia delicada nos olhos. Sua fragilidade física coexistia com uma grandeza técnica rara, e ele foi titular em todos os jogos, marcando dois gols no torneio.
A série também destaca o fato de que toda a linha de frente titular do Brasil, com Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivellino, jogava com a camisa 10 em seus respectivos clubes. Quando chegou a hora da inscrição dos números para a Copa, ninguém questionou a primazia dada a Pelé.
Rivellino, interpretado por Daniel Blanco, ganhou dos mexicanos o apelido de “Patada Atômica” após marcar um gol de falta violentíssima na estreia contra a Tchecoslováquia. Jairzinho, vivido por Gui Ferraz, tornou-se o primeiro e único jogador da história a marcar em todas as partidas de uma única Copa do Mundo, com sete gols em seis jogos.
A Copa de 1970 também foi a primeira a permitir substituições durante as partidas, duas no máximo, e marcou a estreia do cartão amarelo, criado para ajudar a transmissão televisiva em cores.
A Memória que a Ficção Resgata
Brasil 70: A Saga do Tri é um retrato de como o Brasil constrói suas narrativas de glória sobre camadas de silêncio. A minissérie obriga o espectador a confrontar uma verdade incômoda: o tricampeonato de 1970, tão celebrado e mitificado, ocorreu no auge de um dos períodos mais repressivos da história brasileira.
A produção da Netflix, com suas seis horas de duração, equilibra cenas de jogo com momentos intimistas, mostrando que os heróis de 1970 eram homens carregando o peso de uma nação sobre os ombros e fazendo isso enquanto o país ao redor deles desmoronava sob o autoritarismo. A série se torna, assim, um documento de memória cultural tão valioso quanto qualquer arquivo histórico, provocando reflexões que vão muito além dos gramados.
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Momento Cultural #153 – Futebol
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.


