Zé do Caixão: a figura esguia, envolta em capa negra, cartola e unhas longas e curvadas tornou-se tão emblemática para o Brasil quanto o próprio folclore nacional.
Em 13 de março de 1936, nascia em São Paulo José Mojica Marins, o cineasta que revolucionaria o cinema de horror no país e cuja criação mais famosa, o coveiro sádico Zé do Caixão, ultrapassaria as fronteiras do cinema para se tornar ícone cultural reconhecido internacionalmente.
Este ano marca o nonagésimo aniversário de seu nascimento, ocasião que convida a uma visita ao legado de um artista que construiu uma carreira à margem do sistema, enfrentando censura, escassez de recursos e o desdém da crítica, para firmar-se como o mais importante nome do gênero na América Latina.

O Homem Por Trás do Mito
José Mojica Marins nasceu no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, filho de Antônio André Marins e Carmen Mojica Imperial, descendentes de imigrantes espanhóis e artistas circenses. O destino parecia traçar ironicamente seu caminho: o registro civil indica que, embora tenha nascido em 11 de março, sua documentação foi assinada apenas em 13 de março de 1936, uma sexta-feira 13, data que acompanharia simbolicamente toda sua trajetória artística.
A infância de Mojica transcorreu nos fundos de cinemas onde seu pai trabalhava. Aos três anos, a família se mudou para a Vila Anastácio, passando a morar em cima de uma sala de projeção. Foi nesse ambiente que o menino desenvolveu sua obsessão pela sétima arte, trocando uma bicicleta por uma câmera filmadora aos doze anos de idade. Com ela, passou a produzir curtas-metragens amadores, exibidos em igrejas e parques de diversão para financiar seus projetos seguintes.
Aos dezoito anos, fundou a Companhia Cinematográfica Atlas, transformando uma sinagoga abandonada no bairro do Brás em estúdio e escola de atores. Nesse período, Mojica desenvolveu sua metodologia peculiar: utilizava insetos vivos para testar a coragem dos aspirantes a atores, garantindo que apenas os verdadeiramente comprometidos integrassem suas produções.
Sua estreia nos longas-metragens ocorreu em 1958 com A Sina do Aventureiro, faroeste rodado em Cinemascope que se tornou o primeiro filme brasileiro a receber censura de dezoito anos.
O Pesadelo que Gerou um Ícone
A gênese de Zé do Caixão materializou-se literalmente dos pesadelos de seu criador. José Mojica relatou em inúmeras entrevistas que o personagem surgiu após um sonho perturbador: um homem de capa preta e cartola o arrastava por um cemitério até um túmulo contendo suas datas de nascimento e morte. O despertar em pânico resultou na anotação imediata de todos os detalhes, que seriam transpostos para o cinema dois anos depois.
O nome verdadeiro do personagem, Josefel Zanatas, filho de proprietários de agências funerárias, explica a origem do apelido que o consagraria. Criatura solitária, discriminada na infância pela profissão dos pais, Zé do Caixão desenvolveu uma filosofia niilista baseada no desprezo absoluto pela religião e na crença de ser o único ser capaz de estabelecer justiça no mundo. Sua obsessão central de gerar o filho perfeito para perpetuar sua linhagem superior, tornou-se o motor narrativo que atravessaria décadas de filmes.

1. A meia noite levarei a sua alma (1964)
2. Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967)
3. Encarnação do demônio (2008)
A Trilogia Fundamental do Terror Nacional
O ciclo iniciado em 1964 com À Meia-Noite Levarei Sua Alma estabeleceu as bases do horror brasileiro. Considerado o primeiro filme de terror do país, o longa-metragem introduziu espectadores ao coveiro de unhas longas e discursos blasfemos que aterrorizava uma pequena comunidade rural. A produção, realizada com recursos próprios e venda da casa do diretor, contou com a colaboração de familiares e amigos, além de técnicas artesanais que se tornariam marca registrada do cineasta.
A sequência, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), elevou a complexidade narrativa e técnica. Aqui, Mojica introduziu o personagem Bruno, o corcunda assistente de Zé do Caixão, e experimentou com sequências em cores, o inferno psicodélico que o protagonista vislumbra.
A produção enfrentou severa censura da ditadura militar: a cena original do desfecho, onde Zé do Caixão afirma sua descrença em Deus antes de afundar em águas poluídas, foi vetada. Para liberação, Mojica foi obrigado a filmar uma alternativa onde o personagem busca redenção religiosa. Apesar das intervenções, o filme entrou em 2015 para a lista da Abraccine dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
Cinema e Censura: A Ditadura Militar Contra Zé do Caixão
O período de vigência do Ato Institucional nº 5, dezembro de 1968, marcou o auge da repressão estatal à produção cultural brasileira. A censura federal, operada pelo Serviço de Censura Federal do Departamento de Imprensa e Propaganda, passou a atuar com rigor particular sobre conteúdos considerados subversivos à moral e aos bons costumes cristãos. Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, concluído em 1967, encontrou-se exatamente no epicentro dessa transformação autoritária.
O Departamento de Censura Federal apontou o filme como “uma apologia ao crime e à violência, com cenas de terror e cenas de sexo”. A análise técnica de 1967 identificou trechos específicos para supressão obrigatória: “Onde aparece o personagem principal, Zé do Caixão, blasfemando contra Deus e a religião, dizendo que não existe Deus, nem inferno, nem céu, nem nada”, além de “cenas de violência e terror com o personagem principal, Zé do Caixão, cortando a língua de um rapaz e arrancando os olhos de um cego”. A alternativa apresentada pelo cineasta não foi apenas uma concessão estética, foi uma estratégia de sobrevivência profissional em contexto onde a prisão de artistas e a apreensão de negativos eram práticas rotineiras.
A censura atingiu José Mojica de forma pessoal e profissional. Além das interferências em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, o cineasta viu O Despertar da Besta (1970) sofrer cortes ainda mais agressivos. O longa, que explorava temáticas de contractultura e uso de drogas, foi considerado incompatível com os “princípios cristãos” que deveriam nortear a produção nacional.
A estratégia de Mojica consistiu em negociar versões suavizadas para exibição comercial, mantendo cópias originais para circulação clandestina e posterior restauração, uma prática comum entre cineastas da época que preservou versões director’s cut de obras brasileiras.
O impacto da censura foi além das salas de cinema. A proibição de cenas específicas obrigou Mojica a desenvolver linguagem visual alternativa, sugerindo violência através de sombras, reações de personagens e montagem ellipsis, técnica que acabou por enriquecer seu estilo expressionista. A necessidade de subverter o aparato repressivo produziu, paradoxalmente, alguns dos momentos mais inventivos de sua filmografia.

O Fechamento da Trilogia e a Obra Prolífica
O fechamento da trilogia ocorreu quarenta anos depois, com Encarnação do Demônio (2008). Após quatro décadas de ausência dos longas, Mojica retornou com orçamento estimado em 1,8 milhão de reais, o maior já administrado por ele, captado via leis de incentivo à cultura.
O filme acompanha Zé do Caixão recém-saído da prisão, mantendo sua busca obsessiva pelo descendente perfeito em São Paulo contemporânea. A produção foi selecionada para a mostra “Midnight Movies” do Festival de Veneza de 2008 e acumulou dezenas de prêmios em festivais nacionais e internacionais, incluindo Melhor Filme no Festival de Paulínia e prêmio do público no Festival Sesc Melhores Filmes.
A filmografia de Mojica percorre mais de meio século e cinquenta títulos, abrangendo gêneros que vão da pornochanchada ao drama existencial. O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968) apresentou formato antológico com três histórias independentes. Nos anos seguintes, Mojica diversificou com o personagem Finis Hominis em Quando os Deuses Adormecem (1972) e O Profeta da Fome (1973), além de produções do ciclo Boca do Lixo como A Virgem e o Machão (1974). A necessidade financeira o levou a dirigir filmes de teor erótico e explícito durante as décadas de 1970 e 1980, período em que manteve produção constante mas afastou-se do horror que o consagrara.
Consagração Internacional e Legado
O reconhecimento tardio da crítica nacional contrasta com a admiração internacional que Mojica cultivou desde os anos 1990. Seus filmes, descobertos por circuitos cult externos, tornaram-se referência para cineastas de horror mundo afora. Tim Burton declarou que as obras de Mojica “ficaram na minha mente como se fossem pesadelos, mas bons pesadelos”. Quentin Tarantino e Roger Corman igualmente citaram o cineasta brasileiro como influência direta em seus trabalhos.
A caracterização de Zé do Caixão, com cartola, capa negra, unhas naturais que Mojica manteve por trinta e cinco anos, transcendeu o cinema para integrar o imaginário popular brasileiro. O personagem tornou-se presença constante em programas de televisão, histórias em quadrinhos e referências culturais diversas, funcionando como arquétipo do mal nacional ao mesmo tempo em que parodiava a moralidade religiosa conservadora.

A Importância de Zé do Caixão para o Cinema Nacional
José Mojica Marins faleceu em 19 de fevereiro de 2020, aos 83 anos, vítima de complicações de broncopneumonia. Deixou obra inédita e incontáveis projetos em desenvolvimento, além de uma escola de cinema que formou gerações de profissionais. Sua morte, contudo, não encerrou o ciclo: o personagem Zé do Caixão permanece vivo no inconsciente coletivo brasileiro, prova de que criatividade autêntica, mesmo quando relegada às margens durante décadas, encontra seu lugar na história.
Nos noventa anos de seu nascimento, José Mojica é lembrado como pai do terror brasileiro e símbolo de resistência artística.
Em um país onde a produção cinematográfica sempre dependeu de contradições como entre o autoritarismo estatal e a liberdade de expressão, entre o gosto popular e o elogio crítico, sua trajetória demonstra que verdadeiros ícones culturais se forjam na persistência, não no consenso imediato.
O coveiro de cartola e unhas longas, criado num pesadelo de 1962, segue entre nós: imortal, provocativo, eternamente à meia-noite levando nossas almas para territórios onde o terror encontra a poesia.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.


