Dia do Trabalhador - 1º de maio história - Direitos dos trabalhadores

Dia do Trabalhador: 6 livros que explicam que o 1º de maio é dia de luta

Literatura

O Dia do Trabalhador, celebrado em 1º de maio, carrega em sua origem sangue, repressão e a determinação de operários que se recusavam a aceitar jornadas de 16 horas como destino inevitável.  

A data remonta a 1886, quando cerca de 500 mil trabalhadores norte-americanos saíram às ruas de Chicago em greve geral, reivindicando a redução da jornada para oito horas diárias sem cortes salariais. A mobilização, que contou com o apoio de sindicatos anarquistas e da Nobre e Sagrada Ordem dos Cavaleiros do Trabalho, transformou-se no maior movimento operário da época nos Estados Unidos. 

A resposta do poder foi brutal. Em 4 de maio, durante uma manifestação pacífica na Haymarket Square, uma bomba explodiu próximo a policiais, matando um e ferindo outros sete. A polícia reagiu com tiros, resultando em dezenas de feridos e quatro mortes entre os manifestantes. Oito sindicalistas anarquistas foram presos, sete condenados à morte, dois tiveram a pena comutada, um suicidou-se na prisão e quatro foram enforcados em novembro de 1887.  

Em 1893, os sobreviventes foram perdoados pelo governador de Illinois, que reconheceu a injustiça do julgamento. Em 1889, a Segunda Internacional, reunida em Paris, proclamou o 1º de maio como Dia Internacional dos Trabalhadores, em memória aos mártires de Chicago e como símbolo da luta pela jornada de oito horas. 

No Brasil, a data chegou em 1890, logo após a Proclamação da República, mas com um sentido distinto. Segundo o professor Bernardo Kocher, da Universidade Federal Fluminense, o 1º de maio brasileiro inicialmente expressava uma lógica de cidadania republicana, não de confronto de classes. Somente após o 1º Congresso Operário Brasileiro, em 1906, os anarcossindicalistas transformaram a data em dia de greve e luta. Nos anos 1930, Getúlio Vargas a neutralizou: em 1940, decretou o feriado, retirando o caráter combativo e convertendo o “Dia do Trabalhador” em “Dia do Trabalho”. 

A literatura, ao longo de mais de um século, tem sido território privilegiado para registrar, analisar e denunciar as condições do trabalho. Seis obras, de distintas épocas e locais, oferecem lentes poderosas para compreender o significado do 1º de maio além do feriado. 

A história que o feriado esquece: de Chicago à precarização contemporânea 

A transformação do 1º de maio em data cívica, com discursos oficiais e cerimônias protocolares, esvaziou sua dimensão de protesto. O professor Marco Santana, do IFCS/UFRJ, observa que o século 21, no entanto, recoloca a data em tensão: “As transformações recentes do mundo do trabalho, como a precarização, a informalidade, o trabalho por aplicativos, o enfraquecimento sindical e a redução drástica de direitos trabalhistas, recolocam o 1º de Maio como um dia de denúncia e reinvenção das lutas trabalhistas” .  

A pauta se amplia para além da fábrica clássica, englobando o trabalho de cuidado, o racializado, as questões ambientais e a relação entre trabalho, tecnologia e vida. A luta contra a escala 6×1, por exemplo, tornou-se central no Brasil de 2026. 

Seis livros para pensar o trabalho no Dia do Trabalhador 

Dia do trabalhador - Livros sobre trabalho
Livros “A legalização da classe operária” e “Nova classe média?”, ambos da Boitempo

1. “A legalização da classe operária”, de Bernard Edelman (Boitempo) 

Publicado originalmente em 1978 e traduzido para o português em 2016 pela Boitempo, este livro é uma das obras mais densas e perturbadoras sobre o direito do trabalho. Edelman, formado na tradição marxista de Pachukanis e Althusser, desmonta a ideia de que o direito trabalhista representa conquistas irrenunciáveis da classe operária. 

Sua tese central é implacável: a legalização da classe operária funciona como mecanismo de integração ao capital. O direito de greve, por exemplo, é um “direito burguês” que só atinge legalidade em condições que permitem a reprodução do capital. Edelman demonstra como o contrato de trabalho reproduz o direito de propriedade e vice-versa, mantendo a separação do trabalhador de seus meios de produção. A forma jurídica, segundo o autor, força os trabalhadores a adotarem estratégias de luta previsíveis e toleráveis aos padrões capitalistas, interditando a politização da luta operária. 

A obra ganha relevância particular no Brasil pós-1988. Edelman aponta o sindicato como aparelho ideológico de Estado no sentido althusseriano, uma máquina de controle que substitui a luta de classes pela negociação. Sua pergunta “a quem pertence a classe operária?” encontra eco no sistema brasileiro de unicidade sindical e exclusividade de representação, onde a classe operária é transformada em objeto de representação segundo o esquema burguês, quando sua existência de classe é, na verdade, “extralegal” e “inapreensível”. 

Para o leitor do Dia do Trabalhador, Edelman oferece uma advertência: as “vitórias” jurídicas podem ser veneno disfarçado de presente. A integração legal pode desviar a classe operária de sua própria luta. 

2. “Nova classe média?”, de Marcio Pochmann (Boitempo) 

O economista Marcio Pochmann desmonta em 148 páginas um dos mitos mais persistentes do discurso político brasileiro: a ideia de que o país teria se tornado uma nação de classe média. Publicado em 2014 pela Boitempo, o livro argumenta que a noção de “nova classe média” é uma construção quimérica do mercado político, descontextualizada da realidade brasileira. 

Pochmann organiza a obra em quatro partes. Na primeira, traça a história do termo “classe média” em quatro tempos, mostrando sua extemporaneidade no Brasil. Na segunda, apresenta dados contundentes: entre 1988 e 2008, a pobreza caiu quase 40%; o gasto social no PIB saltou de 13,3% em 1985 para 22,7% em 2010; três quartos dos novos empregos remunerados pagavam até 1,5 salário-mínimo. A conclusão é clara: houve mobilidade social na base da pirâmide, mas isso não configurou uma nova classe social, tampouco classe média. 

A terceira parte analisa as cadeias globais de produção e a inserção do Brasil na divisão internacional do trabalho, mostrando como a globalização expandiu o exército de reserva de trabalho de 1,5 para 3,9 bilhões de pessoas, viabilizando sociedades de consumo de baixo custo. A quarta parte examina a mobilidade social ascendente da primeira década do século XXI, que Pochmann caracteriza como “nada tem de nova, tampouco de classe média”. 

O livro é essencial para o Dia do Trabalhador porque revela como a substituição do termo “classe trabalhadora” por “classe média” serve para incutir nos trabalhadores a ideia de que seu vínculo unitivo não é o trabalho, mas o padrão de consumo. Isso implica a individualização e destruição das solidariedades de classe, exatamente o oposto do que a data de 1º de maio representa. 

Dia do trabalhador - Literatura e trabalho
Livros de ficção que ilustram a luta da classe trabalhadora

3. “O cortiço”, de Aluísio Azevedo 

Publicado em 1890, no auge do naturalismo brasileiro, “O cortiço” é um retrato do Brasil em transição do regime escravocrata para o capitalista. O romance se passa em Botafogo, Rio de Janeiro, e tem como eixo o cortiço de São Romão, propriedade do português João Romão. 

João Romão é o arquétipo do capitalismo emergente: de empregado de uma venda, transforma-se em proprietário de cortiço, venda e pedreira, acumulando capital à custa da exploração de Bertoleza, uma mulher negra, escravizada, que trabalha em sua quitanda e confia suas economias a ele, sem saber que ele as furta. Ao lado do cortiço, vive a família Miranda, representante da burguesia ascendente, cujo sobrado aristocrata contrasta com a miséria do cortiço. 

O que torna a obra indispensável para o Dia do Trabalhador é sua análise das relações sociais como puramente movidas pelo interesse individual. Antonio Candido, em estudo clássico, identificou três categorias de personagens: o português explorador capitalista (João Romão, Miranda, Jerônimo); o negro/mestiço reduzido a escravo (Bertoleza, Firmo, Rita Baiana); e o animal, a redução biológica do homem à condição de besta de carga. O próprio cortiço funciona como personagem, com “olhos que se abrem” e capacidade de transformar o caráter de quem nele habita. 

Aluísio Azevedo retrata um Brasil onde a luta de classes já existia, mesmo que não nomeada. A obra mostra como o capitalismo brasileiro nasceu da escravidão, mantendo estruturas de dominação sob novas roupagens. Para o leitor contemporâneo, é um aviso: as desigualdades que justificaram a greve de Chicago persistem em formas adaptadas. 

4. “A fábrica”, de Hiroko Oyamada (Todavia) 

Primeiro romance da japonesa Hiroko Oyamada publicado no Brasil pela Todavia (2025), “A fábrica” é uma experiência literária perturbadora. A narrativa se passa em uma fábrica sem nome, de produção indefinida, que funciona como uma cidade autossuficiente: bares, karaokês, restaurantes, lagos artificiais, hotéis, bancos, agências de viagem e até moradias. 

Três personagens narram em primeira pessoa: Yoshiko, Ushiyama e Furufue. Cada um trabalha em setores distintos, isolados, sem saber o que os outros fazem e, o que é pior, sem saber o que eles próprios fazem ou como contribuem para o produto final. Um deles coleta musgos; outro fragmenta papéis e documentos. A sensação de absurdo é constante: “Não me parece que alguém esteja conferindo os documentos depois que eu os reviso. Os envelopes com os documentos revisados desaparecem da prateleira onde são deixados”. 

Oyamada constrói uma sátira surrealista sobre a alienação no trabalho moderno. A fábrica abriga funcionários efetivos, temporários e terceirizados, com condições que pioram conforme a precariedade do vínculo aumenta. Todos, no entanto, parecem agradecer a oportunidade, trabalhar ali é motivo de orgulho para a família. A pergunta que a obra insiste em fazer é existencial: “existe vida fora do trabalho?”. 

Para o Dia do Trabalhador, “A fábrica” atualiza as questões de 1886. A jornada de oito horas foi conquistada, mas a precarização, a terceirização e a dissolução do sentido do trabalho criam novas formas de exploração. Oyamada mostra que a luta não terminou, ela apenas mudou de campo. 

5. “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus (Ática) 

Publicado em 1960, “Quarto de despejo — Diário de uma favelada” é um dos textos mais brutais já escritos sobre a exclusão do trabalho e da cidadania no Brasil. Carolina Maria de Jesus, mulher negra, mãe solo, semianalfabeta e catadora de papel, registrou em cadernos encardidos a vida na favela do Canindé, em São Paulo. 

A metáfora do título é devastadora: “Eu classifico São Paulo assim: O Palácio é a sala de visita. A prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos”. Carolina descreve a fome como cor amarela: “quando se está com fome tudo fica amarelo”, e a angústia de ver os filhos passando necessidade. Sua consciência política é afiada: “Eu quando estou com fome quero matar o Jânio, quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades cortam o afeto do povo pelos políticos”. 

A obra é também um documento de racismo estrutural, o Estado, em sua percepção, é a extensão do poder da classe branca: “o mundo é como o branco quer”. A divisão espacial da cidade reflete a divisão racial: a favela como “quarto de despejo” onde se joga o que não tem valor. 

Para o Dia do Trabalhador, Carolina Maria de Jesus lembra que a luta operária não pode esquecer os excluídos do trabalho formal. Se em 1886 os operários de Chicago reivindicavam oito horas, em 1960 Carolina reivindicava o direito de não ser lixo. Suas palavras mantêm atualidade inquietante. 

6. “Germinal”, de Émile Zola (Estação Liberdade) 

Publicado em 1885, “Germinal” é considerado uma das obras mais importantes do naturalismo europeu e um marco na literatura sobre a classe operária. Zola passou dois meses trabalhando em uma mina de carvão na França para escrever o romance, que retrata a greve dos mineiros de Montsou. 

O protagonista, Étienne Lantier, sente na pele as condições miseráveis dos trabalhadores: jornadas exaustivas, alimentação precária, banhos coletivos na mesma água, famílias que se alimentam de restos e têm filhos para que trabalhem desde cedo complementando a renda. A greve, liderada por Étienne, é a resposta à exploração. Zola utiliza o viés naturalista, aproximando os mineiros de animais e associando a mina a um “monstro”, mas essa aparente desumanização serve para denunciar a desumanização real do sistema. 

A obra é frequentemente associada ao socialismo científico. Em vestibulares, já foi cobrada a relação entre as condições de trabalho na mina e a visão marxista do Estado como instrumento de dominação de uma classe sobre outra. O romance termina com uma nota de esperança revolucionária, apesar da derrota imediata dos grevistas. 

“Germinal” é essencial para o Dia do Trabalhador porque conecta diretamente a literatura à ação política, mostrando que a literatura pode ser arma de conscientização de classe. 

Dia do trabalhador - Direitos dos trabalhadores
1º de Maio é dia de lutas e reivindicações

Por que o 1º de maio não é comemoração 

A história do 1º de maio é a história de trabalhadores que morreram para que outros não precisassem trabalhar 16 horas por dia. Os mártires de Haymarket não estavam comemorando, estavam reivindicando direitos básicos. A data foi institucionalizada como feriado precisamente para esvaziar esse conteúdo combativo. 

No Brasil, essa neutralização ocorreu de forma particularmente eficaz. De dia de cidadania republicana (1890) a dia de greve (1906) a feriado oficial (1940), o 1º de maio perdeu sua capacidade de nomear o conflito entre capital e trabalho. O professor Bernardo Kocher, da UFF, resume: “A data passou a significar quase nada. Tanto que isso já foi dito várias vezes e você tem que fazer entrevista, porque a cultura se perdeu”. 

Mas a precarização contemporânea recoloca a data em jogo. O trabalho por aplicativos, a terceirização em massa, a reforma trabalhista de 2017, a escala 6×1, o desemprego estrutural, tudo isso mostra que os direitos conquistados não são definitivos. Eles podem ser, como advertia Edelman, “reapropriados no sistema dos espaços”. 

A literatura, desde Zola até Oyamada, desde Aluisio Azevedo até Carolina Maria de Jesus, tem papel fundamental em manter viva essa memória. Não como mero registro histórico, mas como ferramenta de análise e denúncia. Os livros listados aqui não são leituras festivas para um feriado de descanso. São textos incômodos, que perturbam a complacência e lembram que o Dia do Trabalhador só existe porque trabalhadores se recusaram a ser tratados como mercadoria. 

A reivindicação de direitos não é concessão do progresso ou benevolência das classes dominantes. É conquista obtida por meio de lutas, conflito social e organização coletiva. O 1º de maio de 1886 em Chicago provou que operários sem direitos formais podem parar uma cidade. O 1º de maio de 2026, em qualquer cidade do mundo, ainda exige a mesma pergunta: o que estamos dispostos a reivindicar?