O álbum de estreia do Black Sabbath completa 56 anos nesta sexta-feira, 13 de fevereiro, e o peso da data não é coincidência. Lançado exatamente no dia em que o rock precisava de algo mais sombrio, o disco homônimo de 1970 não foi apenas o primeiro registro de uma banda de Birmingham: foi o momento em que o heavy metal saiu do blues e ganhou forma própria, com riffs lentos, temas ocultos e uma atmosfera de fim de mundo que ninguém havia ouvido antes.
Tudo começou em 1968, quando quatro jovens operários de uma cidade industrial inglesa decidiram que o blues rock convencional não bastava. Tony Iommi, Geezer Butler, Bill Ward e Ozzy Osbourne tocavam como Earth, uma banda de covers que mal pagava as contas. O nome mudou depois que Geezer viu o cartaz de um filme de terror italiano, Black Sabbath, com Boris Karloff. A escolha foi profética.
Em 16 de outubro de 1969, eles entraram no Regent Sound Studios, em Londres, com um produtor iniciante chamado Rodger Bain e engenheiro Tom Allom. Gravaram o álbum inteiro em menos de 12 horas, ao vivo, quase sem overdubs.
Tony Iommi, que havia perdido as pontas dos dedos médios da mão esquerda num acidente de fábrica anos antes, tocava com proteções de plástico improvisadas e cordas mais leves. O resultado foi um som mais grave, mais denso, quase doloroso.
A banda achou que tinha feito algo normal. O mundo levou anos para entender que tinha nascido um gênero.

A Origem e a Gravação do Álbum de Estreia do Black Sabbath
Birmingham, final dos anos 60, era um lugar cinzento, cheio de fábricas e desemprego. Os quatro membros do Black Sabbath vinham desse mundo. Tony Iommi trabalhava numa fábrica de chapas metálicas; Bill Ward, Geeser Butler e Ozzy Osbourne também não nasceram em berço de ouro. A música era fuga e sobrevivência.
Antes de virar Black Sabbath, o quarteto já flertava com o pesado, mas faltava identidade. A virada veio com a decisão de escrever canções próprias inspiradas em filmes de terror, livros de Dennis Wheatley e H.P. Lovecraft, e no interesse crescente de Geezer pelo ocultismo.
A gravação foi quase um improviso. O selo Vertigo, que havia assumido o contrato da Fontana, deu um dia de estúdio. A banda tocou como se estivesse no palco. Efeitos de chuva, vento e sinos foram adicionados depois, mas o essencial, o peso, a lentidão, a tensão, sairam crus.
Iommi já usava afinação mais baixa para facilitar o toque, o que deu à guitarra aquele tom grave e ameaçador que viraria marca registrada do metal. Ward, com sua bateria jazzística misturada a pancadas brutas, e Butler, com linhas de baixo que pareciam terremotos, completavam o quadro. Quando saíram do estúdio, foram direto para um show na Suíça. O disco custou cerca de 600 libras para ser feito. Décadas depois, renderia milhões.

Faixa a Faixa: As Músicas Que Construíram o Legado do Álbum de Estreia do Black Sabbath
A versão original britânica tem sete faixas e dura pouco mais de 38 minutos. É um disco curto, mas que parece durar uma eternidade.
- Black Sabbath abre com o sino que ainda ecoa na cabeça de qualquer fã de metal. O riff descendente, baseado no trítono – o famoso “intervalo do diabo” –, entra devagar, como um presságio. Osbourne canta como se estivesse sendo perseguido pelo próprio Lúcifer. A letra nasceu de um pesadelo de Geezer: ele acordou e viu uma figura negra aos pés da cama. A música não é uma celebração do mal, é um aviso. O falso final e o último ataque de guitarra transformam o tema em hino.
- The Wizard traz a gaita de Osbourne uivando como um trem desgovernado. É o momento mais blues do disco, mas já com o peso do novo som. A história de um mago que protege o povo contra o mal remete a O Senhor dos Anéis, livro que Geezer devorava na época. O riff de Iommi serpenteia, a bateria de Ward acelera e desacelera, e o baixo de Butler segura tudo com autoridade.
- Behind the Wall of Sleep (com a introdução “Wasp” na versão americana) mergulha no terror cósmico de Lovecraft. O riff tem cara de ritual indígena distorcido. O baixo e a guitarra se duelam enquanto Osbourne recita versos sobre sonhos que atravessam paredes. É doom antes do doom existir.
- N.I.B. é pura malícia. O nome vem da barba de Bill Ward, que lembrava a ponta de uma caneta (“nib”). Butler faz um solo de baixo com wah-wah que parece guitarra. Osbourne canta como um anjo caído se apaixonando. O riff principal é hipnótico, e a ponte muda de tempo como se o chão estivesse rachando.
- Evil Woman (cover da banda Crow) e Sleeping Village mostram o lado mais jam do grupo. A primeira é blues rock acelerado, a segunda vira uma paisagem noturna, com harpa judaica de Bain e vocais quase sussurrados de Osbourne.
- Warning, o cover da Aynsley Dunbar Retaliation, fecha o disco com mais de dez minutos de improvisação. Iommi solta solos que parecem rasgar o ar. É o momento em que o Black Sabbath ainda olha para trás, para o blues, antes de seguir adiante.
A versão americana trocou “Evil Woman” por “Wicked World” e juntou faixas em medleys, mas o espírito é o mesmo: escuridão, peso e urgência.
O Legado e a Importância do Álbum de Estreia do Black Sabbath para o Heavy Metal
Na época, a crítica detestou. Lester Bangs, da Rolling Stone, chamou de “pior que Cream”. Robert Christgau falou em “necromancia de merda”. O público, porém, entendeu. O disco chegou ao 8º lugar na Inglaterra e ficou mais de um ano nas paradas americanas. Mas o mais importante foi que ele mudou as regras.
Antes do Black Sabbath, o rock pesado era Led Zeppelin, Deep Purple, Cream, bandas que ainda flertavam com o blues e a psicodelia. O álbum de estreia do Black Sabbath subverteu essa linha. Riffs lentos, temas de terror, afinação baixa, vocais desesperados. Foi o primeiro disco a soar como se o apocalipse tivesse chegamento. O heavy metal, como gênero reconhecível, nasceu ali. Sem ele, não haveria Judas Priest, Iron Maiden, Metallica, Slayer, nem o doom, o stoner, o sludge. Lars Ulrich, do Metallica, disse que sem Sabbath o hard rock e o heavy metal seriam “muito diferentes”, e concordo com ele.
O disco também capturou o espírito da época: Guerra do Vietnã, Guerra Fria, Inglaterra pós-guerra, juventude sem futuro. A capa, com a mulher misteriosa no moinho de Mapledurham, e o crucifixo invertido no encarte (colocado pelo designer, não pela banda) alimentaram a fama de satanistas. A banda negou até o fim, mas o mito ajudou a vender.
Hoje, o álbum de estreia do Black Sabbath aparece em todas as listas de essenciais: 5º melhor disco de metal de todos os tempos segundo a Rolling Stone, um dos 1001 que você precisa ouvir antes de morrer. E o mais impressionante: ele não envelheceu. Toca hoje e ainda assusta, ainda pesa, ainda soa como algo que não deveria existir.
Reviva o Clássico: O Álbum de Estreia do Black Sabbath
Para sentir o impacto na pele, o melhor jeito é ouvir do começo ao fim, sem interrupção. O álbum de estreia do Black Sabbath está disponível integralmente nas plataformas de streaming, incluindo versões remasterizadas que preservam a crueza original.
Coloque o volume alto, apague a luz e deixe o sino tocar. Cinquenta e seis anos depois, o heavy metal ainda começa exatamente aqui.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.


