Consumo Musical no underground

O consumo musical no underground em 2025 

Sociedade

O consumo musical underground, especialmente no metal extremo, continua pulsando com paixão, identidade e resistência, mesmo diante das transformações tecnológicas de 2025. 

Resultados da Pesquisa da DARK RÁDIO 

Um editorial da DARK RÁDIO, baseado em uma enquete com mais de 4.600 participantes, revela como os fãs estão consumindo música hoje, destacando a tensão entre o digital e o físico, o imediato e o ritualístico.  

A pesquisa perguntou se os ouvintes ainda compram formatos físicos, como CDs, vinis e fitas cassete, e de quais bandas. As respostas mostram um cenário diverso, com quatro perfis distintos de consumo que refletem mudanças culturais e tecnológicas. 

Cerca de 32% dos participantes compram material físico ocasionalmente, mas priorizam o streaming, indicando uma adaptação à praticidade das plataformas digitais. Outros 27% abandonaram completamente os formatos físicos, consumindo música exclusivamente online. Já 23% preferem apoiar bandas novas e independentes, comprando seus discos como forma de sustentar a cena underground. Por fim, 18% investem apenas em bandas consagradas, movidos por laços afetivos e nostálgicos com artistas que marcaram suas histórias pessoais. 

OpçãoPerguntasVotosPorcentagem
Opção 1Sim, principalmente de bandas novas e independentes107823%
Opção 2Sim, mas só de bandas consagradas que eu acompanho há anos84418%
Opção 3Compro físico de vez em quando, mas escuto quase tudo por streaming150132%
Opção 4Não compro material físico, só ouço por plataformas digitais126527%

O Domínio do Streaming 

O domínio do streaming reflete a busca por acessibilidade e imediatismo. Plataformas digitais oferecem catálogos vastos, disponíveis a qualquer momento, em qualquer lugar, porém a facilidade do acesso pode levar a uma escuta superficial, marcada pela troca rápida de faixas e pela influência de algoritmos que moldam o que chega aos ouvintes. Esse modelo, embora prático, distancia o público da imersão profunda que caracteriza a experiência do underground, onde a música é mais do que som, ela é um ritual de pertencimento. 

Por outro lado, a compra de discos físicos, especialmente de bandas novas, surge como um ato de resistência. Adquirir um vinil ou CD de um grupo independente é mais do que uma transação comercial; é um gesto de apoio à produção cultural à margem do mainstream.  

Esse comportamento reflete uma escolha consciente de valorizar a cena underground, sustentando artistas que operam fora dos grandes circuitos comerciais. Para muitos, comprar um disco é reafirmar uma identidade cultural e participar ativamente da preservação de uma comunidade criativa. 

Os fãs que optam por bandas consagradas, por sua vez, buscam reconectar-se com memórias e momentos marcantes. Adquirir um novo álbum de um grupo clássico pode ser uma forma de reviver a adolescência ou um período significativo da vida. No entanto, esse apego ao passado pode limitar a abertura ao novo, correndo o risco de estagnar a essência experimental do underground, que sempre se alimentou de inovação e ousadia. 

Desafios da Desmaterialização 

A pesquisa também aponta para uma mudança cultural mais ampla, onde o acesso supera a posse. A música, cada vez mais, é vista como um serviço, um fluxo constante de dados, em vez de um objeto tangível. Contudo, essa desmaterialização traz desafios: a precarização do trabalho artístico e a concentração de lucros nas plataformas digitais ameaçam a sustentabilidade da cena underground. 

O consumo musical no underground vai além de escolher entre streaming e discos físicos. É uma prática que constrói identidades, sustenta comunidades e resiste à homogeneização cultural. Para que o underground continue vibrante, os fãs precisam ser mais do que consumidores, devem ser cúmplices, apoiando artistas com ações concretas, como comprar discos, compartilhar conteúdos e participar ativamente da cena. 

Em 2025, ouvir música underground é, acima de tudo, um ato de pertencimento e compromisso com uma cultura que pulsa na contramão do mainstream. 

Consumo Musical no underground - Daniel Aghehost - Dark Rádio
Daniel Aghehost, idealizador da Dark Rádio

Entrevista com Daniel Aghehost 

Fiz 5 perguntas para o Daniel Aghehost, idealizador da Dark Rádio, para contar um pouco mais sobre essa pesquisa. Leia abaixo a entrevista completa: 

Quem é Daniel Aghehost? 

(DA) – “Bem, é difícil, vou tentar resumir aqui quem eu sou. Mas sou Daniel Aghehost, eu estou no cenário desde o final da década de 80, já contribuí com muitos zines, organizei festivais desde o começo dos anos 90, estive muito envolvido principalmente com o cenário black death metal, então já estive em algumas bandas, zines e vivo o underground desde que me entendo por gente. O underground é minha grande paixão, tanto que me levou a ter uma pequena gravadora, me levou a criar a Dark Rádio, um veículo que apoiasse o underground, é meu grande ópio, é minha grande paixão, toda voltada para o underground. Eu sou um apaixonado por bandas desconhecidas, conhecer novas bandas e desde menino sempre quis apoiar o underground, quis fazer com que esse cenário nosso se perpetuasse e todos os movimentos que eu faço são para isso. Então, contribuí em vários zines, gosto de escrever sobre música desde pequeno e hoje a grande realização é ver a Dark Rádio quase completando 15 anos de total devoção ao underground, mantendo-se como uma referência no cenário underground.” 

Por que fazer uma pesquisa sobre formas de consumir música (mídias físicas x digital)? 

(DA) – “Antes de tudo, também sou um colecionador, então desde que conheci (o underground) e comecei a ter minha própria renda, eu compro material, sou um quase acumulador, então é impossível, eu não lembro de um mês onde eu não tenha comprado nada, nem que fosse um material único que seja. E por estar há tanto tempo no underground, eu venho acompanhando as mudanças deste formato. Como proprietário de um pequeno selo também, eu venho acompanhando as dificuldades que, principalmente o underground, vem enfrentando com estas transformações, e aí eu quis muito saber. A gente tem um espaço de enquetes na Dark Radio que estava sendo pouquíssimo utilizado e eu tive um estalo de tentar trazer, um pouco do comportamento, então a ideia é que as próximas enquetes disponíveis reflitam mais sobre isso, porque seria muito fácil falar qual o seu disco preferido e tal, mas não, quero conhecer um pouco mais sobre este underground, que é muito diferente do underground que me trouxe lá no final dos 80, começo dos 90. Então, quis muito saber como estava esse consumo de metal, principalmente no underground, se era uma perspectiva diferente do que eu como colecionador e como produtor venho enxergando, então eu fiquei muito contente de ver que teve uma boa adesão, deu para fazer uma margem de pesquisa e traçar um pouco desse comportamento, validando um pouco das coisas que eu pensava, me surpreendendo com outras, mas a ideia foi tentar entender essas transformações, para onde o underground está caminhando.” 

As respostas recebidas foram as esperadas ou foi um resultado surpreendente? 

(DA) – “Olha, confesso que me surpreendeu sim a resposta, o resultado desta pesquisa me surpreendeu bastante, porque se você olhar uma primeira análise, quase 80% das pessoas assumem que compram o material, que compram o físico. Uma falha da pesquisa foi a periodicidade, querer saber com que frequência essas pessoas compram, mas eu fiquei muito animado por ver que as pessoas ainda compram, ali foi possível destrinchar um pouco, ver que tem gente que compra mais de bandas clássicas, tem gente que compra mais de bandas mais desconhecidas, e uma parcela alia muito bem este ato de comprar com o ato de ouvir música por streaming, coisas do tipo. Eu sei o papel que o streaming possui, principalmente em divulgação e consumo de material, de bandas e músicas e tudo mais, mas me surpreendeu bastante, porque uma das visões que eu tinha era que este número das pessoas que consomem apenas streaming fosse maior. Muito disso se deve talvez pelo fato deste fetiche do vinil estar em alta, as pessoas estão consumindo vinil, procurando. Você vai a uma feira de discos, o número de pessoas que iam há 5 anos atrás, 6 anos atrás, é muito maior hoje, isso vem crescendo muito, o que é bacana, porque eu cheguei ir em feira de discos e passei o dia todo lá e teve 10, 12 pessoas, hoje é lotado, então isso pode ter refletido um pouco no resultado final dessa pesquisa, mas eu fiquei muito contente de saber que as pessoas ainda procuram material físico. Quando há uma barreira financeira, não compro por causa de grana, isso é algo que está fora de si, você não consegue lidar com isso, agora quando a pessoa tem um dinheiro ali, sobrando, e ela busca adquirir o material da banda que ela gosta, ou conhecer novas bandas, apoiar o iniciante, isso é muito bom, então eu fiquei muito surpreso com o resultado desta pesquisa sim.” 

Como você acha que vai ser o futuro na maneira de consumir música? 

(DA) – “Eu acho que o streaming veio para ficar. Esta facilidade do material, de você conseguir a qualquer momento ouvir um lançamento assim que ele sai, isso é fantástico, né? Eu, quando menino, tem alguns discos que mexeram muito comigo na época do lançamento, e eu demorei dois, três anos para conseguir uma cópia. E a gente não lembra dessas histórias com orgulho, né? Muito pelo contrário, era muito difícil. E você conseguir ouvir algo que acabou de ser lançado, isso é fabuloso, isso é inimaginável para quem está vindo lá dos anos 90. Então, o futuro, eu acredito que eu não consigo prever com exatidão como será o futuro da mídia física, porque a mídia física hoje, ela tem um status mais de colecionismo e ou fetiche, né? Eu não sei, as pessoas não sentem necessidade. Você não precisa ter o material físico para falar que você curte metal, que você é um cara atuante no underground. O streaming vai facilitar muito para que as bandas sejam notadas, isso facilita muito mais. Antigamente, muitas bandas demoraram muito para serem notadas, mas o streaming veio com uma força muito grande. Eu espero que, com o tempo, a gente tenha uma facilidade maior de conhecer novas bandas, porque as pessoas ainda estão muito presas aos algoritmos, né? As pessoas ainda ouvem muito o que é indicado ou que aleatoriamente aparece para você ali. Então, acredito que o underground vai se fortalecer ainda mais quando houver ali um streaming específico ou um, sei lá, que o algoritmo trabalhe um pouco mais para isso. Mas, em contrapartida, serviços de curadoria, como os canais que falam de metal no YouTube, a própria Dark Radio, canais que apresentam isso para as pessoas, tende a se perpetuar, né? Eu acho que a gente talvez perca muito audiência com o passar dos anos, mas as pessoas que ouvem a Dark Radio, as pessoas que consomem os canais que falam de metal, os canais mais extremos, essas pessoas sempre vão ter ali um conteúdo relevante que traga um pouco das novidades sendo lançadas, porque é um risco muito grande, por mais que seja uma coisa boa que essas pessoas continuem consumindo material físico, mas é um risco muito grande se a gente continuar consumindo apenas das mesmas bandas, porque você fica apoiando discos ali que, às vezes, saem sem muita inspiração, em detrimento de bandas que lançam materiais incríveis, mas por um problema de alcance, não conseguem chegar na maioria dos ouvintes. Então, eu acho que o streaming veio para ficar e os serviços de curadoria, aqueles que indicam, que apontam, que falam sobre o que está fora da evidência, tendem a ser ainda mais referência para quem busca esse tipo de música.” 

Agradecimento pela Participação 

(DA) – “Eu que agradeço essa participação. Falar de música sempre foi uma grande paixão. E eu fico muito contente de poder contribuir um pouco com esse assunto tão relevante, assunto que dá horas e horas de papo de boteco, assuntos que podem gerar matérias incríveis. E eu fico muito feliz de participar e de estar aqui no Momento Cultural. Muito obrigado a você, aos seus leitores, aos seus ouvintes. E continuem apoiando o Underground independente da forma como você consome material.” 

Ouça aqui a entrevista completa

O Futuro do Underground 

Em 2025, a cena musical underground permanece um espaço de resistência e paixão, onde o consumo de música reflete escolhas conscientes que vão além do entretenimento.  

A pesquisa da Dark Radio e as palavras de Daniel Aghehost revelam um público que equilibra a praticidade do streaming com o valor simbólico dos formatos físicos, seja para apoiar novas bandas ou reviver memórias com artistas consagrados.  

Para que o underground continue a prosperar, é essencial que os fãs assumam um papel ativo, promovendo a descoberta de novos talentos e desafiando os algoritmos que limitam a diversidade musical. O futuro da cena dependerá dessa cumplicidade entre ouvintes, artistas e iniciativas como a Dark Radio, que mantêm viva a essência rebelde e criativa do underground.