FLIPEI - CENSURA EVENTOS LITERÁRIOS

FLIPEI 2025: Censura, Resistência e 3 Livros Imperdíveis do Evento

Literatura

Quando a Literatura Vira Trincheira 

A FLIPEI (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes) nunca foi apenas um evento literário. Desde sua primeira edição em 2019, surgiu como contraponto à elitização do mercado editorial, reunindo autores marginalizados, editoras pequenas e debates que raramente encontram espaço em grandes festivais.  

Em 2025, porém, o festival viveu seu momento mais dramático: um cancelamento abrupto pela Fundação Theatro Municipal de São Paulo, seguido por uma reorganização relâmpago que transformou a programação em ato político. 

Vamos ver o episódio de censura que marcou a FLIPEI 2025, e escolhi três obras fundamentais apresentadas no evento, livros que, cada um à sua maneira, decifram as crises do nosso tempo: a ocupação colonial na Palestina, a vida nas periferias brasileiras e a ascensão do autoritarismo nos EUA. São obras que transcendem o papel para se tornarem documentos históricos. 

A FLIPEI 2025: Do Cancelamento à Resistência 

O Ataque à Liberdade de Expressão 

Dois dias antes da abertura, marcada para 6 de agosto na Praça das Artes, a organização recebeu a notícia: a Fundação Theatro Municipal cancelava o contrato, alegando “conteúdo político-ideológico” na programação. A justificativa soou como censura pura, especialmente porque a mesma Fundação, em 2023, homenageara Michelle Bolsonaro sem qualquer questionamento. 

O contrato previa multa de R$ 1,2 milhão por cancelamento sem aviso prévio de 15 dias, mas a Fundação transferiu a responsabilidade para a organização social Sustenidos, gestora do espaço. A produtora Cais ameaçou ação judicial, mas o tempo era curto. A FLIPEI precisava se reinventar em 48 horas. 

A Reconstrução em Espaços de Resistência 

O que poderia ter sido o fim do festival tornou-se seu momento mais simbólico. A programação foi remanejada para três espaços alternativos no centro de São Paulo: 

Galpão Elza Soares (MST) – Recebeu mesas sobre ecossocialismo, inteligência artificial e direitos indígenas. 

Casa Luiz Gama – Abrigou a programação infantil, com contações de história e oficinas gratuitas. 

Bar Sol y Sombra – Virou palco de saraus, bailes latinos e debates sobre cultura periférica. 

Uma vaquinha online arrecadou fundos para cobrir custos extras, enquanto coletivos culturais cederam equipamentos de som e iluminação. A solidariedade transformou a FLIPEI em um movimento. 

Mesas que Abalaram Estruturas 

A abertura, no Galpão Elza Soares, reuniu o historiador israelense Ilan Pappé e o ativista Thiago Ávila para discutir “Genocídio Sionista e Resistência na Palestina”. Pappé, crítico ferrenho do governo israelense, destacou: 

“Censurar este evento só prova que a educação assusta quem lucra com a opressão.” 

Outros destaques da FLIPEI  2025: 

Silvia Cusicanqui (Bolívia) – Debateu anticolonialismo e a luta indígena. 

Louisa Yousfi (Argélia) – Analisou o racismo estrutural na Europa. 

Jones Manoel e Milly Lacombe – Discutiram fascismo e manipulação midiática. 

Até o domingo, 10 de agosto, o festival registrou milhares de participantes, com recorde de público, e movimentou muitas vendas para as editoras independentes. 

FLIPEI - ILAN PAPPÉ
“A Maior Prisão do Mundo” – Ilan Pappé – Editora Elefante

Três Livros Imperdíveis da FLIPEI 2025 

”A Maior Prisão do Mundo” – Ilan Pappé (Editora Elefante) 

Ilan Pappé não é apenas um acadêmico; é um dos principais nomes da historiografia crítica ao sionismo. Em “A Maior Prisão do Mundo”, ele desmonta a narrativa oficial israelense sobre a ocupação da Palestina, usando documentos do próprio governo para provar seu argumento: Gaza e a Cisjordânia funcionam como uma prisão a céu aberto. 

O livro aborda temas fundamentais como: 

A limpeza étnica de 1948 – Como 750 mil palestinos foram expulsos de suas terras. 

O plano de 1963 – Documentos revelam a intenção de ocupação permanente. 

A militarização da vida palestina – Restrições de movimento, toques de recolher e controle de recursos básicos como água. 

“Não é um conflito, é colonialismo.” – Ilan Pappé 

FLIPEI - LILIA GUERRA
“Perifobia” – Lilia Guerra – Editora Todavia

“Perifobia” – Lilia Guerra (Editora Todavia) 

Lilia Guerra cunhou o termo “perifobia” para descrever o desconforto que as elites têm ao enfrentar a realidade das periferias. Seu livro é uma coletânea de 26 contos interligados, mostrando que a vida nas “quebradas” não se resume à violência – há amor, humor e resistência. 

São histórias que ficam em nossa memória, por serem muito familiares à nossa realidade: 

“O Carrinho de Lata” – Um catador de recicláveis encontra dignidade no lixo alheio. 

“A Primeira Festa” – Uma adolescente descobre a solidariedade entre mulheres. 

“O Ônibus 175” – Dois desconhecidos dividem segredos numa viagem interminável. 

“A periferia não é só lugar de dor, é lugar de invenção.” – Lilia Guerra 

FLIPEI - JAMIL CHADE
“Tomara que você seja deportado” – Jamil Chade – Editora Nós

“Tomara Que Você Seja Deportado” – Jamil Chade (Editora Nós) 

O jornalista Jamil Chade está vivendo nos EUA, em pleno governo Trump e narra, em primeira mão, como a retórica anti-imigrante virou política de Estado. O título vem de uma ameaça que seu filho, com apenas 10 anos de idade, ouviu no pátio da escola. 

Jamil fez diversas viagens pelos Estados Unidos e ouviu muitas histórias: 

Relatos de fronteira – Famílias separadas, crianças em gaiolas. 

A escalada do ódio – Como discursos de ódio normalizaram a violência. 

O Brasil no espelho – Paralelos com o bolsonarismo. 

“O autoritarismo não começa com campos de concentração; começa com piadas.” (Jamil Chade)

No último domingo, comentei sobre a FLIPEI 2025 e esses três livros no Programa Momento Cultural (Dark Rádio) e trouxe o áudio completo aqui para você. Falamos sobre como a censura ao evento revela a força da literatura independente e por que essas obras são tão urgentes. Confira abaixo: 

Por que a FLIPEI (e esses livros) Importam? 

A FLIPEI 2025 terminou, mas seu legado permanece. O festival provou que, mesmo sob censura, a literatura encontra caminhos para fazer denúncias e trazer questionamentos, como os três livros aqui destacados. 

Pappé nos ensina que a história é uma arma. 

Lilia Guerra mostra que a periferia não pede licença para existir. 

Jamil Chade alerta que o autoritarismo é uma ameaça global. 

Em tempos de discursos de ódio e revisionismo histórico, esses autores lembram: livros não são apenas objetos, são resistência. 

Onde encontrar esses livros? 

Sebos independentes 

Feiras de editoras pequenas 

Livrarias de bairro 

(E, se possível, evite as grandes livrarias – a FLIPEI também é sobre isso.) 

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