A FLIPEI, Festa Literária Pirata das Editoras Independentes, enfrenta um novo capítulo de resistência em 2025. Marcada para ocorrer entre 6 e 10 de agosto em São Paulo, a sétima edição do evento, que celebra a literatura independente e o pensamento crítico, foi abruptamente cancelada pela Fundação Theatro Municipal a apenas cinco dias de sua abertura.
A justificativa de “cunho político-ideológico” levantou acusações de censura, especialmente pela presença de figuras como o historiador Ilan Pappé e o ativista Thiago Ávila. Apesar do veto, a FLIPEI segue firme, transferindo-se para espaços alternativos, reafirmando seu compromisso com a democratização da cultura.
A Essência da FLIPEI e Sua Missão Cultural
O Que É a FLIPEI?
A Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (FLIPEI) nasceu em 2018 como um contraponto aos grandes eventos literários brasileiros, frequentemente elitizados e comercializados.
Inicialmente uma programação paralela à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a FLIPEI se consolidou como um espaço de resistência cultural, promovendo editoras independentes, autores marginais e debates que desafiam o status quo. Com edições em Paraty (2018, 2019, 2022, 2023), uma versão online em 2021 devido à pandemia, e a migração para São Paulo em 2024 após ataques em Paraty, a FLIPEI se destaca por sua gratuidade e acessibilidade, oferecendo uma plataforma para vozes negras, indígenas, LGBTQIA+ e periféricas.
A Edição de 2025: Uma Hiper-Festa Literária
A sétima edição da FLIPEI, programada para 6 a 10 de agosto de 2025, promete ser a maior já realizada, com cerca de 200 editoras independentes de todas as regiões do Brasil.
Realizada com apoio do Edital Fomento Cultsp – PNAB 39/2024, a feira é 100% gratuita para público e editoras, um marco em sua história. A programação inclui 28 debates nacionais e internacionais, shows com artistas como Rincon Sapiência e Dead Fish, atividades infantis na Zona Piratinha, cine-clube, acessibilidade para pessoas com deficiência e foco em perspectivas indígenas e afro-brasileiras. Entre os convidados internacionais, destaca-se a boliviana Silvia Cusicanqui, referência no campo de pensamento decolonial.
Destaques da Programação
Além de lançamentos de livros, a FLIPEI 2025 traz debates sobre temas urgentes, como a questão palestina, a luta pan-africanista e o realismo capitalista.
Mesas como “Genocídio sionista e resistência na Palestina”, com Ilan Pappé e Thiago Ávila, e “Como a cultura e a literatura independente são capazes de mudar o mundo”, com Nabil Bonduki e Luana Alves, refletem o compromisso do evento com o pensamento transformador.
A programação também inclui contação de histórias indígenas com Nathalia Kariri e apresentações musicais, reforçando a diversidade cultural.

Polêmicas e Resistência: O Cancelamento no Theatro Municipal
A Presença de Ilan Pappé e Thiago Ávila
A FLIPEI 2025 atraiu atenção pela participação de Ilan Pappé, historiador israelense e crítico contundente das políticas do governo Netanyahu no conflito Israel-Palestina. Pappé, autor de obras como Israel Vs. Palestina: a mais breve história do conflito (Editora Ideias de Ler – 2025), enfrentou pressões para não participar de eventos no Brasil, incluindo a Flip 2025, onde relatou campanhas para silenciar suas falas públicas.
Junto a ele, Thiago Ávila, ativista brasileiro detido por Israel em junho de 2025 por integrar a Flotilha da Liberdade, que levava ajuda humanitária a Gaza, também está confirmado.
A mesa com ambos, mediada por Soraya Misleh, promete discutir a resistência palestina, um tema que gerou incômodo em setores conservadores.
O Cancelamento Abrupto pela Fundação Theatro Municipal
A cinco dias do início do evento, a Fundação Theatro Municipal (FTM), vinculada à Secretaria Municipal de Cultura da gestão Ricardo Nunes (MDB), comunicou a rescisão do contrato que autorizava a FLIPEI a ocupar a Praça das Artes. O contrato, assinado há cinco meses, exigia notificação de 15 dias para qualquer cancelamento, o que torna a decisão irregular.
O ofício, assinado pelo diretor Abrão Mafra, alegou que a programação da FLIPEI tinha “cunho político-ideológico” e “viés eleitoral”, justificativas que os organizadores classificam como censura explícita. A medida também incluiu a remoção de postagens sobre o evento nas redes sociais da FTM e a exclusão da programação de seu site oficial.
Contradições da Gestão Municipal
A alegação de “cunho político-ideológico” contrasta com eventos anteriores no Theatro Municipal.
Em 2024, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro recebeu o título de cidadã paulistana no local, um ato de claro viés político durante período eleitoral. O espaço também já sediou eventos religiosos voltados ao público evangélico, o que levanta questionamentos sobre a seletividade da FTM.
Para os organizadores da FLIPEI, a decisão reflete um “lobby sionista” e uma tentativa de silenciar vozes críticas, como as de Pappé e Ávila, além de temas como Palestina, quilombos e justiça social. O vereador Nabil Bonduki (PT) classificou a atitude como “inadmissível em uma democracia”, destacando que debates políticos são inerentes a eventos culturais.
A FLIPEI Segue: Resistência em Novos Espaços
A Reação à Censura
Diante do cancelamento, a FLIPEI reafirmou sua resiliência. Em comunicado, a organização declarou que a tentativa de censura “virou combustível” para fortalecer o evento. Medidas judiciais e políticas estão sendo tomadas para responsabilizar a FTM, a Secretaria de Cultura e a Prefeitura de São Paulo.
A decisão também foi criticada por figuras como o jornalista Jamil Chade, que denunciou a “censura insuportável” da gestão municipal. Chade vai fazer o lançamento de seu novo livro, Tomara que você seja deportado: Uma viagem pela distopia americana (Editora Nós – 2025), durante o evento.
A FLIPEI, que já enfrentou repressão em 2019 e 2023 por setores da extrema direita, incluindo ataques a sua programação em Paraty, mantém sua postura de não pedir licença para existir.
Novos Espaços de Resistência
A FLIPEI 2025 não será cancelada. A programação foi mantida para os mesmos dias e horários, transferida para espaços alternativos como o Galpão Elza Soares (Campos Elíseos), o Armazém do Campo (Campos Elíseos) e o Sol y Sombra (Bela Vista). Esses locais, ligados a movimentos sociais e à cultura popular, alinham-se à visão da FLIPEI de promover uma cultura acessível e crítica.
A organização promete divulgar detalhes atualizados em breve, garantindo que as 200 editoras, 40 debates, shows e atividades infantis cheguem ao público. A mudança reforça a identidade “pirata” do evento, que se recusa a se curvar às pressões e encontra força na resistência coletiva.
O Futuro da FLIPEI e a Luta pela Liberdade Cultural
A tentativa de censura à FLIPEI 2025 não é um caso isolado, mas parte de um histórico de ataques à liberdade de expressão no Brasil.
Desde sua criação, a FLIPEI enfrenta resistências por sua programação subversiva, que dá voz a narrativas marginalizadas e desafia o mercado editorial tradicional. A edição de 2025, com sua ênfase na gratuidade e na diversidade, representa um marco na democratização do acesso à cultura.
Ao ocupar novos espaços e manter sua programação, a FLIPEI prova que a literatura verdadeira, aquela que incomoda e transforma, sempre encontra caminhos para resistir. Como destacou Rafael Limongelli, um dos organizadores, “a FLIPEI é uma festa pirata que só cresce quando tentam calá-la”.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.



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