Ana Maria Gonçalves na ABL marca um momento histórico para a literatura e a cultura brasileira.
A eleição da escritora mineira, autora do aclamado Um Defeito de Cor, como a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL) em 128 anos de história da instituição, celebrada em 10 de julho de 2025, reflete o reconhecimento de seu talento literário e um passo significativo rumo à representatividade racial e de gênero na cultura nacional.
Com 30 dos 31 votos possíveis, Ana Maria Gonçalves assumiu a cadeira 33, sucedendo o filólogo Evanildo Bechara, e tornou-se a mais jovem entre os atuais imortais, aos 55 anos. Sua trajetória, marcada por uma obra-prima que resgata a memória afro-brasileira, dialoga com a luta por inclusão e a reescrita da história do Brasil sob a perspectiva de vozes historicamente silenciadas.
Trajetória de Ana Maria Gonçalves: Uma Vida Dedicada à Literatura
De Ibiá a Itaparica: Raízes e Transformações
Nascida em 1970, em Ibiá, Minas Gerais, Ana Maria Gonçalves construiu uma trajetória singular que a levou de uma carreira em publicidade à consagração como uma das vozes mais potentes da literatura brasileira contemporânea.
Após 13 anos trabalhando em São Paulo, Ana Maria tomou uma decisão que mudaria sua vida: mudou-se para a Ilha de Itaparica, na Bahia, onde se dedicou integralmente à escrita durante cinco anos. Esse período de imersão foi essencial para a criação de suas obras, que refletem um profundo compromisso com a pesquisa histórica e a valorização da cultura afro-brasileira.
Sua formação em publicidade, embora distante do universo literário, trouxe um olhar atento para a comunicação e a narrativa, habilidades que ela refinou em seus textos.
Primeiros Passos e Consagração Literária
Antes de Um Defeito de Cor, Gonçalves publicou de forma independente o romance Ao Lado e à Margem do que Sentes por Mim, hoje uma obra rara, esgotada e difícil de encontrar até em sebos. O livro, embora menos conhecido, já demonstrava sua habilidade em criar narrativas sensíveis e complexas.
Após o sucesso de sua obra-prima, Um Defeito de Cor, em 2006, a autora se envolveu em projetos como peças teatrais, contos e roteiros cinematográficos, mas enfrentou dificuldades para concluir novos romances, com cerca de 30 projetos iniciados e não finalizados.
Em 2024, ela anunciou dois novos livros, ainda inéditos, que abordarão temáticas raciais, reforçando seu compromisso com a memória e a identidade negra no Brasil.

Um Defeito de Cor: Um Clássico da Literatura Brasileira
A Jornada de Kehinde: Enredo e Contexto Histórico
Um Defeito de Cor, publicado em 2006 pela Editora Record, é um romance histórico de 952 páginas que narra a trajetória de Kehinde, uma mulher negra africana escravizada, inspirada em figuras reais como Luiza Mahin, mãe do abolicionista Luiz Gama.
A narrativa, escrita em primeira pessoa, acompanha a protagonista desde sua captura no Daomé (atual Benin), aos sete anos, até sua luta por liberdade e a busca por um filho perdido no Brasil.
Baseada em extensa pesquisa histórica, incluindo jornais, testamentos e cartas de alforria, a obra entrelaça fatos históricos com uma fabulação poderosa, oferecendo um olhar íntimo sobre a escravidão, a resistência e a resiliência das mulheres negras no século XIX. A riqueza descritiva de cenários como a Bahia, o Rio de Janeiro e São Paulo da época enriquece a narrativa, tornando-a um documento vivo da formação do Brasil.
Premiações e Impacto Cultural
A obra conquistou o prestigiado Prêmio Casa de las Américas em 2007 e foi eleita, em 2025, pelo júri da Folha de S.Paulo como o melhor livro da literatura brasileira do século XXI. Com mais de 180 mil exemplares vendidos, Um Defeito de Cor ganhou nova edição de luxo em 2023, com ensaio visual da artista Rosana Paulino, reforçando sua relevância.
A narrativa também inspirou exposições, como a mostra homônima no Museu de Arte do Rio (MAR) e no Sesc Pinheiros, em São Paulo, que reuniu obras de 131 artistas para dialogar com a cosmogonia africana presente no romance.
Em 2024, o livro foi tema do enredo da escola de samba Portela, intitulado “Um Defeito de Cor”, que destacou a luta e o poder matriarcal das mulheres negras, esgotando estoques em livrarias e impulsionando um novo boom de vendas, com 2.000 exemplares vendidos em um único dia após a eleição de Ana Maria Gonçalves na ABL.

Primeira Mulher Negra na ABL: Um Marco de Representatividade
Rompendo Barreiras em 128 Anos de História
A eleição de Ana Maria Gonçalves como a primeira mulher negra na Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897, é um marco de representatividade em uma instituição historicamente marcada pela predominância de homens brancos.
Embora Machado de Assis, um homem negro, tenha sido o primeiro presidente da ABL, a ausência de mulheres negras entre os imortais até 2025 reflete as barreiras estruturais do campo literário brasileiro.
A escolha de Ana Maria, com votação quase unânime, sinaliza um esforço da ABL para se alinhar à diversidade cultural do Brasil, como destacado por membros como Lilia Schwarcz e Gilberto Gil. A escritora é a 13ª mulher a ocupar uma das 40 cadeiras, seguindo nomes como Rachel de Queiroz, a primeira mulher eleita, em 1977.
O Significado para a Literatura e a Sociedade
A presença de Ana Maria Gonçalves na ABL transcende o reconhecimento individual. Sua eleição é um símbolo de resistência contra o apagamento histórico das vozes negras e femininas, reforçando a necessidade de narrativas que desafiem a história oficial do Brasil.
Como destacou a ministra Anielle Franco, “Ana Maria Gonçalves, autora de Um Defeito de Cor, é a primeira mulher negra eleita para a ABL, um feito histórico”.
A escritora mineira, ao ocupar a cadeira 33, traz para o centro do debate literário a potência da memória afro-brasileira, abrindo espaço para que outras vozes marginalizadas sejam ouvidas. Sua obra, que conecta passado e presente, é um convite à reflexão sobre as desigualdades raciais e de gênero que persistem no Brasil, promovendo um diálogo essencial para a construção de uma sociedade mais plural e democrática.
Abaixo, a lista atualizada dos membros da Academia Brasileira de Letras, destacando Ana Maria Gonçalves na cadeira 33
| Nº da Cadeira | Nome do Ocupante | Local e Data de Nascimento | Obra Mais Importante |
|---|---|---|---|
| 1 | Ana Maria Machado | Rio de Janeiro, RJ, 24/12/1941 | Tropical Sol da Liberdade |
| 2 | Eduardo Giannetti | Belo Horizonte, MG, 23/02/1957 | Autoengano |
| 3 | Joaquim Falcão | Rio de Janeiro, RJ, 04/12/1943 | Democracia, Direito e Cultura |
| 4 | Carlos Nejar | Porto Alegre, RS, 11/01/1939 | História da Literatura Brasileira |
| 5 | Ailton Krenak | Itabirinha, MG, 30/09/1953 | Ideias para Adiar o Fim do Mundo |
| 6 | Cícero Sandroni | São Paulo, SP, 02/03/1935 | 200 Anos de Jornalismo no Brasil |
| 7 | Miriam Leitão | Caratinga, MG, 07/04/1953 | Saga Brasileira |
| 8 | Ricardo Cavaliere | Rio de Janeiro, RJ, 28/07/1940 | Poesia Reunida |
| 9 | Lilia Moritz Schwarcz | São Paulo, SP, 14/10/1957 | O Espetáculo das Raças |
| 10 | Rosiska Darcy de Oliveira | Rio de Janeiro, RJ, 28/03/1944 | Elogio da Diferença |
| 11 | Ignácio de Loyola Brandão | Araraquara, SP, 31/07/1936 | Zero |
| 12 | Paulo Niemeyer | Rio de Janeiro, RJ, 16/04/1952 | Contribuições à neurocirurgia |
| 13 | Ruy Castro | Caratinga, MG, 26/02/1948 | Carmen: Uma Biografia |
| 14 | Celso Lafer | São Paulo, SP, 07/08/1941 | A Identidade Internacional do Brasil |
| 15 | Marco Lucchesi | Rio de Janeiro, RJ, 09/12/1963 | Poemas Reunidos |
| 16 | Jorge Caldeira | São Paulo, SP, 04/03/1955 | História da Riqueza no Brasil |
| 17 | Fernanda Montenegro | Rio de Janeiro, RJ, 16/10/1929 | Central do Brasil (filme) |
| 18 | Arnaldo Niskier | Rio de Janeiro, RJ, 06/04/1935 | Educação Brasileira |
| 19 | Antônio Carlos Secchin | Rio de Janeiro, RJ, 10/06/1952 | Poemas |
| 20 | Gilberto Gil | Salvador, BA, 26/06/1942 | Refavela |
| 21 | Paulo Coelho | Rio de Janeiro, RJ, 24/08/1947 | O Alquimista |
| 22 | João Almino | Mossoró, RN, 27/04/1950 | As Cinco Estações do Amor |
| 23 | Antônio Torres | Junco, BA, 13/09/1940 | Essa Terra |
| 24 | Geraldo Carneiro | Belo Horizonte, MG, 12/06/1952 | Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa |
| 25 | Alberto Venâncio Filho | Rio de Janeiro, RJ, 16/09/1936 | Direito Constitucional |
| 26 | José Roberto de Castro Neves | Rio de Janeiro, RJ, 17/05/1946 | Direito Constitucional |
| 27 | Edgard Telles Ribeiro | São Paulo, SP, 06/03/1944 | O Punho e a Renda |
| 28 | Domício Proença Filho | Rio de Janeiro, RJ, 25/01/1936 | Capitu |
| 29 | Geraldo Holanda Cavalcanti | Recife, PE, 06/02/1929 | O Canto da Arara |
| 30 | Paulo Henriques Britto | Rio de Janeiro, RJ, 06/09/1951 | Macau |
| 31 | Merval Pereira | Rio de Janeiro, RJ, 25/09/1949 | O Lulismo no Poder |
| 32 | Zuenir Ventura | Além Paraíba, MG, 01/06/1931 | 1968: O Ano que Não Terminou |
| 33 | Ana Maria Gonçalves | Ibiá, MG, 07/04/1970 | Um Defeito de Cor |
| 34 | Evaldo Cabral de Mello | Recife, PE, 20/01/1936 | O Nome e o Sangue |
| 35 | Godofredo de Oliveira Neto | Blumenau, SC, 06/08/1951 | O Bruxo do Contestado |
| 36 | Fernando Henrique Cardoso | Rio de Janeiro, RJ, 18/06/1931 | Dependência e Desenvolvimento na América Latina |
| 37 | Arno Wehling | Rio de Janeiro, RJ, 25/07/1947 | Estado e Sociedade no Brasil |
| 38 | José Sarney | Pinheiro, MA, 24/04/1930 | Marimbondos de Fogo |
| 39 | José Paulo Cavalcanti | Recife, PE, 21/05/1948 | Fernando Pessoa: Uma Quase Autobiografia |
| 40 | Edmar Bacha | Rio de Janeiro, RJ, 14/02/1942 | Plano Real |
Por que Ler Um Defeito de Cor?
Uma Obra que Transforma Perspectivas
Um Defeito de Cor é mais do que um romance histórico; é um chamado à memória e à ancestralidade, como descreve Jessica Cardoso, assessora parlamentar e integrante do Grupo de Trabalho e Afinidade de Raça do Senado.
A narrativa de Kehinde, com sua profundidade emocional e rigor histórico, oferece aos leitores a oportunidade de compreender o Brasil a partir da perspectiva de uma mulher negra escravizada, cujas lutas ainda estão presentes nas questões raciais contemporâneas. A obra desafia preconceitos e convida a uma leitura que, nas palavras da própria Ana Maria, permite ao leitor “ser tocado por universos e realidades até então desconhecidos”.
Sua relevância foi amplificada por eventos culturais, como o desfile da Portela e a exposição no Sesc Pinheiros, que demonstram o impacto do livro além da literatura, alcançando as artes visuais e o carnaval.
Um Convite à Leitura Consciente
Com 952 páginas, Um Defeito de Cor pode parecer intimidante, mas, como destacou o escritor Millôr Fernandes, é uma leitura que prende da primeira à última página.
A riqueza de detalhes, a força da protagonista e a habilidade de Ana Maria em entrelaçar história e ficção tornam o romance uma experiência transformadora.
Para leitores interessados em literatura brasileira, história afro-brasileira ou narrativas de resistência, o livro é uma porta de entrada para reflexões profundas sobre identidade, racismo e resiliência.
A recente eleição de Ana Maria Gonçalves para a ABL reforça a importância de mergulhar em sua obra, que continua a inspirar novas gerações e a moldar o entendimento coletivo do Brasil.
Amante de livros, músicas e filmes desde que me conheço por gente.
Livreira há muitos anos.
Criadora e redatora chefe do Meu Momento Cultural.
A minha vontade de dividir essa paixão, me trouxe até aqui.



Realmente um marco….dica de leitura anotada…
Parabéns por um artigo que, além de informar, inspira reflexão profunda sobre representatividade, memória e a força da escrita de mulheres negras. 🌻👏